There is always more then meets the eye!

09
Dez 06
A cozinha era enorme aos seus olhos de menina e os rituais misturavam-se com os cheiros, os sabores, o tilintar dos copos e talheres e o ocasional roçar de uma manga de lã nas bolas de vidro da árvore de Natal.A mesa tinha muitas cores! Os olhos abriram-se quando foram acesas as velas e começaram a desfilar para fora do forno a lenha tabuleiros repletos de iguarias. O rosto da avó vermelho de lume parecia esculpido esta noite, como se as rugas tivessem sido apagadas. O lenha ardia e as labaredas dançavam cada vez mais alto como fazendo corridas para chegar aos enchidos quase fumados. Nem comia de tão maravilhada! Uma mão de mãe paciente e sábia colocava-lhe no prato o bacalhau já sem espinhas e, com um afago nos caracóis que começavam a desvanecer, dizia-lhe que comesse devagarinho para ter espaço para a sobremesa à lareira. A mesa estava repleta de risos e cada vez mais vazia de comida e de vinhos. Os risos eram alegres, nervosos mas havia risos de miúdos e graúdos. Tantos risos que apagavam as lembranças de risos do Natal anterior. As mães deixaram-nos levantar a mesa e colocar as almofadas em cima de bancos de madeira junto à lareira e os pais preparavam idéias para os entreter até estarem todos a cair de sono. Naquele Natal nenhum menino falava de prendas enquanto se conversava e jogava à lareira. Naquele espaço, o tempo tinha parado e as televisões estavam apagadas. Os computadores escondidos e os brinquedos e os telemóveis desligados... O único indicio de evolução eram as pessoas e os seus sentimentos. Demonstrações de evolução que não necessitam de formulas matemáticas, electricas ou electrónicas... a evolução era o nutrir de sentimentos uns pelos outros! Naquela noite a menina foi a última a adormecer no colo do pai. A saia do seu vestido dançava nas suas pernas e as fitas do cabelo desprendiam-se. Aquele era o seu último Natal com a avó. Ela não sabia! Quando um graúdo a acordou para ir :”Xixi, cama!”Estendeu os braços ao pai e puxou o pescoço da mãe dizendo que queria que a avó lhe vestisse o pijama. Enquanto os outros miúdos abriam uma prenda antes de dormir a avó vestia-lhe o pijama “de menina”(a avó era muito ciosa nesses assuntos) e levou-a nos braços para que escolhesse-se um presente. Escolheu-o de olhos fechados e assim o abriu. Era um livro de histórias fantásticas de magias, príncipes e princesas. Os olhinhos brilhavam de alegria e sono. E quando a foram deitar dizia que queria que as princesas do livro tivessem o cabelo como o da avó. ... No Natal seguinte a cozinha parecia-lhe pequena e apesar dos risos e da comida e dos cheiros e de tudo adormeceu cedo e sem magia nos olhos. Foi deitar-se sozinha e em cima da almofada, na cama por abrir tinha um embrulho com uma trança prateada presa com laço de fita. Naquele Natal não tinha um pijama de menina, nem um livro de histórias de magia e fantasia mas tinha o cabelo perfeito de uma princesa...
publicado por crowe às 23:32
sinto-me: Que nem sei!

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