There is always more then meets the eye!

15
Abr 05
A noite estava escura quando saiu para o beco mal iluminado onde a chuva caia como um chuveiro avariado! Estava trôpega e as pernas pareciam-lhe esparguete cozido enfiados nuns estiletes pretos de uma marca mais cara que o meu telemóvel. O cabelo caia-lhe na face rosada e tapava-lhe as feições. Ria um riso quase macabro e tentava manter fechada uma gabardina prateada. Cambaleava de tal forma que me senti compelido a abandonar a protecção da luz do candeeiro e a secura do toldo que me abrigava para a retirar debaixo daquela chuveirada infernal. Não havia vivalma na rua, o que não me admirava dado o temporal e o bairro em que estávamos! Ela continuou trôpega até chegar ao toldo em que eu estava abrigado! Olhou-me por entre o cabelo molhado e a gola da camisola que tinha até ao nariz! Olhou-me por entre os enormes cílios que lhe emolduravam os olhos verdes, descobriu a cara e pediu-me se lhe chamava um táxi. A mulher era hipnotizante e estava alcoolicamente alterada! Respondi-lhe que não tinha rede, se não podia voltar para o bar de onde vinha. Tornou a olhar-me, agora como se não me entendesse! Mas que tinha ela de tão especial? Porque não conseguia eu soltar os meus olhos dos dela? Aproveitei um breve instante em que os piscou, ofuscada pela claridade do candeeiro, para me libertar. Enquanto tentava contar os salpicos de lama que me povoavam os sapatos, ouvi a pergunta seguinte, em forma de sugestão. Se não podia chamar o taxi, que a levasse então para minha casa! Ou não teria casa? E agora? Que fazer com esta atracção que me parecia fatal? Deixá-la correr até ao fim? Fugir dela desde já? Meio termo não haveria, disso tinha a certeza. Respondi que sim, que tinha casa, que claro que a levava. Pronto. A escolha tinha sido feita. E não pela minha parte pensante. Passei-lhe um braço pelos ombros, amparando-a no andar. Senti o seu cheiro, enquanto caminhávamos até ao meu carro, enquanto ela se abandonava, enquanto eu deixava o resto da minha razão debaixo do toldo em que me abrigara. Não me lembro do caminho percorrido até casa. Mas lembro-me de a transportar, enrolada como um feto, nos meus braços, escada acima. Lembro-me de a despir, suavemente. Lembro-me do seu corpo nú, da sua cara adormecida, emoldurada pelos cabelos revoltos. Lembro-me de me despir e de me deitar a seu lado, aspirando seu cheiro em golfadas de ar que me sufocavam. Lembro-me. Acordei de manhã, com o toque insuportável do despertador! Sozinho. Procurei-a ávidamente com os olhos. Ninguem. Nada. Ao meu lado a cama estava intacta. A almofada direita. E contudo...sentia ainda o seu cheiro. Percorri a casa com a pouca roupa que me cobria o corpo, o chão estava frio e não havia um sinal mínimo da presença dela. Voltei aos pulos para o quarto, tropeçando em meus próprios pés, e percorri a cama e as almofadas a tentar encontrar um cabelo que fosse. Nada! Nem cheiro, nem cabelo…podia ter sonhado mas… que sonho podia ter sido este que me perturbava os sentidos neste momento?! Peguei no maço de cigarros e soube que não tinha sonhado. Todos eles estavam marcados de baton! Ela tinha beijado cada um deles. Sorri! Despejei o maço e vi um carro desenhado na prata. Vesti uns jeans à pressa e enfiei uma camisa que não abotoei, desci as escadas descalço. A chave do meu carro não estava ali…! Cheguei à garagem e ela lá estava sentada no capot do carro, com as pernas cruzadas, os sapatos na mão. Sorriu e os olhos brilharam como esmeraldas. Desceu do capot e acenou-me com as chaves! - Bem, parece que o pequeno-almoço vai ser na praia.- disse apontando para os meus pés.- Are you ready for a bumpy ride?- e sorriu. E, no exacto momento em que ía reveler a minha prontidão para um ínicio de dia tão radical....o despertador tocou novamente! E, desta vez, percebi que tinha acordado mesmo. Nem o seu cheiro, nem cigarros beijados! As chaves do carro estavam no sítio delas! No capot ninguem, a não ser a poeira acumulada por longos dias sem chuva!! @uma colaboração entre Fdarkeyes e moi même, Crowe!
publicado por crowe às 09:05

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