There is always more then meets the eye!

27
Mai 09

A "Paula", que eu não conheço mas, a quem desde já agradeço os simpáticos comentários ;) deixou a sugestão deste vídeo dos Blue Foundation (que eu conhecia através da banda sonora do Twilight) e serviu de mote para terminar este post.

Enjoy!

 

Hoje estou na merda!

Começavam assim os e-mails:

Dói-me o cérebro de tanta pancada interior que lhe dei. Sinceramente ninguém consegue ralhar mais comigo que eu. E não vou começar com a eficiência...
Sempre segui os meus instintos e tive até agora provas mais do que suficientes para saber que nunca devia colocá-los de lado.
A sensação de dor física e um querer rasgar o peito com ambas as mãos enquanto dava voz à dor com o volume no máximo não importando quem passava por si.
Esta merda só me apetece espancar-me fisicamente a mim própria e fá-lo-ia não fosse isto parecer uma cena religiosa.
Fazes-me falta!
Fazes-me falta ao acordar!
Fazes-me falta ao deitar... e ... ao levantar!
Fazes-me falta quando me sinto vazia e inconsolável por ninguém perceber este meu estranho humor e esta “estranha forma de vida”.
Pôrra, percebes que quando me disseste que “ só isso não” me deixaste no mais puro estado de melancolia e tristeza?
A bater em mim própria por saber que não devia havê-lo dito? Não a ti!
(...)
Poderás perceber que nem tudo tem de decorrer de acordo com as regras instituídas por todas as pessoas?
Foi por mim, pela louca e possessiva, completamente inconstante e espontânea que te enamoraste. Foi por ti: doce e louco, apaixonado e divertido que fiquei de cabeça perdida.
Porque motivo, então, teríamos nós que alterar o nosso  fruto proibido e ir viver de acordo com as convenções de todos os outros?

...

-    Um homem que consegue manter apaixonada e satisfeita a mesma mulher durante muito tempo e o faz com paixão e prazer é um super homem!- dizia ela brincado com o pé do copo de vinho. Vê-la fazer aquilo fazia-lhe o hipotálamo produzir em excesso certas hormonas e um calor no fim da barriga. D.H.Lawrence dizia que um homem de verdade tinha dois homens dentro de si: ele próprio e o seu pénis.
Ele achava que era algo assim. Não estava a raciocinar muito bem... ela sorveu um gole de vinho e ai sim estragou tudo. Pensar, que era isso? Ela não era a mais perfeita mulher fisicamente. Nem a mais bela! Mas... aquela forma de olhar prendia-o como se fosse um anzol e a sua voz hipnotizava-o. Naquele momento era aquele boca deliciosa que brincava com o copo de vinho... nem se recordava claramente das conversas imensas que tinham. No entanto sorvia o ar que ela expelia e os seus olhos seguiam os movimentos dos lábios.
-    Não gostas da comida?!
-    Não! Quero dizer... sim está óptima.- Tosco! Quer dizer... a comida que estava na sua mente não era exactamente a que tinha no prato.
...

Quero ter-te de volta porque quero e nem sei bem porquê! Ver-te comer e beber hoje foi uma tortura para mim. Não me prometas nada e eu não o farei também!
Quero-te a ti! Simplesmente porque sim sem necessitar que me expliques nada e sem ter de ir fazer psicanálise para me perceber ou perceber-te!
Completas-me e hipnotizas-me... e enebrias-me os sentidos ... e deixas-me fora de mim tal o desejo carnal. E sim eu sei que é possível que a maioria das vezes não tenha "pedalada para ti" quando andas a 1000 com os teus livros e ideias loucas... com os teus humores mas, posso ser o teu quarto de laranja (também não acredito em metades).
Vais rir-te da tortura que foi conduzir até casa com o maldito inchaço no meu segundo Cérebro.
Estou na mais pura MERDA sem ti!
Merda então, para as regras dos outros e para aquelas que tentei impingir-nos!
Sei que estás fula com tanta referência ao meu pénis e a tanta lúxuria mas que fazer se até o teu riso me provoca hipertensão?
Quero passar os momentos acordados, dormentes e adormecidos contigo.

...

Abriu a porta ainda com a roupa daquele inicio de noite. Ele estava do outro lado com aqueles magníficos olhos azuis escuros.
Nunca tinha percebido como aquele homem podia ficar assim por causa da presença dela mas... sinceramente... não se achava inferior a ele só porque ele seria, segundo padrões de beleza convencionais, um pedaço de mau caminho abissal e ela não o era. Ele fazia-lhe falta por ele e ela agradava-lhe pelos pequenos pormenores que a tornavam única.
Tinha estado na merda mas Duvidava que aquele olhar capaz de provocar o degelo das calotes polares não a fizesse deixar esse sentimento.
 

publicado por crowe às 19:07
sinto-me: je ne sais quoi!
música: blue foundation
tags:

15
Abr 09

@ Para a minha querida amiga Claúdia, que encontres sempre razões para sonhar a dormir ou acordada.

;) Tu conheces a magia... mergulha!

 

Tinha desistido de sonhar. Sonhar só servia para a frustrar ainda mais. Acordava e apercebia-se do quanto impossíveis ou inconcretizáveis eram os sonhos que tinha. A vida era já de si estranha o suficiente.
Ela conduzia-o a casa tentando ampará-lo e equilibrá-lo, as suas sandálias, aquelas que nunca lhe tinham parecido demasiado altas ou demasiado frágeis, ameaçavam a qualquer altura quebrar. A mão dele, excessivamente quente, descansava no seu decote balançando levemente com o movimento.
-Preciso da chave para abrir a porta.
Ao tentar chegar ao bolso dos jeans num movimento trôpego e desajeitado desiquilibrou-se caindo no chão alcatifado do corredor e levando consigo a sua companheira.
O riso dele era ébrio, o dela era surpreso. Com um dedo retirou-lhe uma madeixa da cara.

Ele passou o dedo pela minha face de forma tão suave que parecia uma carícia feita com um pedaço de seda. Seguiu um trilho imaginário até se aninhar na minha nuca e seu suspirei involuntariamente. Elevou a cabeça e parou junto aos meus lábios com os seus olhos brilhantes.
Ficou o beijo suspenso enquanto ele me acariciava a nuca lambendo o contorno dos meus lábios, os seus cílios longos por vezes beijando a minha pele.


Ela passou-lhe uma mão pelo torço, lentamente até chegar à zona do baixo ventre. Ele suspirava audívelmente  com o rosto escondido na curva do seu pescoço.
-    Aha!- Disse triunfante com um molho de chaves na mão. Pôs-se de pé num pulo e  enquanto abria a porta não viu o olhar frustrado e admirado dele.

O elevador estava cheio de gente como em todos os outros dias aquela hora da manhã.
A mão do homem a seu lado roçou a sua suavemente.

Não precisei olhar para saber que era ele. Retribuiu o toque sem o olhar. Todos olhavam em frente e ninguém reparava em nós no fundo do elevador. Senti uma mão no interior do meu blazer. Estúpidamente senti arrepios por todo o corpo enquanto ele continuava a deambular pela minha pele.
Ele sussurou-me ao ouvido que saísse com ele. Respondi-lhe que saísse ele comigo. Uma morena enorme sorriu-lhe quando ele passou por ela e senti despeito. Ele sorriu-lhe e ela foi. Saiu atrás dele.


O sangue saltava-me nas veias como se tivesse vida própria e quisesse sair num disparo pelos orifícios do meu corpo.
Nada me acalmava, rebolava pela cama já desfeita e os lençóis eram um emaranhado de rugas e vincos. Liguei à Alice que como sempre se encontrava numa festa. Não me apeteciam as festas da Alice, hoje não.
Mas acedi a ir buscá-la e vir trazê-la a casa. As cargas etílicas já deviam ser em maior quantidade que o seu sangue... decidi dar descanso à cama!
Ir buscar pessoas ébrias parecia ser o seu fado.
Depois de  esperar imenso à porta do Plateau lá acabei por entrar à procura dela. Felizmente era uma madrugada fraquinha e encontrei a sua cabeleira ruiva com facilidade.
Entre um vamos lá dançar mais esta... e depois a outra ficámos a vaguear no soalho de madeira entre uns e outros olhos de estranhos que se fixavam e desapegavam.
O meu vestido esvoaçava em volta da minha pele como se fosse um parceiro que se colava mas não apertava. Dançávamos em sintonia perfeita até que me deparei com uns olhos verdes e brilhantes do outro lado da pista. A sintonia era outra e fiquei refém daquele brilho. Ele começou a deslocar-se na minha direcção. A Alice sussurou - me que queria ir para casa. Quando voltei a olhar o seu lugar estava ocupado por outra pessoa.  Sentámo-nos um pouco e ele juntou-se a nós.


Aquele grupo conversava animadamente. Ele bajulado por várias só olhando para ela como se se tratasse do fruto proibido.
Cobiça, desejo...Paixão!Quando se levantaram os lábios roçaram acidentalmente...

Quando abri os olhos a luz começava a penetrar no quarto por entre as frestas das janelas. O interior parecia uma imagem a sépia. O único ponto de cor eram os olhos dele que me fitavam molengões. Esticou-se e espreguiçou-se como um felino e o lençol descia pelo seu torço. Fiquei assim a retribuir o olhar até que adormeci novamente.

Na tarde seguinte, entrei no elevador com os óculos maiores que tinha. Doíam-me todos os músculos do corpo e o meu cabelo cor de beterraba ainda insistia em ondular. Sai do elevador a procurar um  cigarro na mala quando esbarrei em alguém. Por entre as enormes lentes negras lá estavam eles: os olhos verdes. Entreabri os lábios para lhe pedir desculpa e ele beijou-me e sorriu. Amei aquele beijo e esqueci o cigarro.

Naquela tarde  dormi bem e não sonhei. Não porque não quisesse mas porque não precisei.






 

 

publicado por crowe às 22:41
tags:

17
Mar 09

@Para alguém muito especial que prova que ainda existem pérolas escondidas...

Amanhã levas o livro... hoje aqui fica a personagem com cheirinho da mulher que a inspira...

 

 

Where have you been all of my life... turururu...rururu

Havia poucas coisas na vida que tinha como certas. Funcionavam como pequenas âncoras que me seguravam nos momentos de dúvida, melancolia, incertezas e desgostos, momentos de tristeza e raiva.
Tinha os meus amigos e a minha família e o sentimento profundamente enraizado de amor e certeza de que podiam falhar todos os outros aspectos da minha vida mas esses estariam lá sempre, nem que fossem somente memórias doces ou mesmo banais e já muito nebulosas.
Tinha a minha capacidade de amar que transcendia em muito  a sorte que tinha no amor o que nem importava muito... continuava a amar e a apaixonar-me por todas as coisas.
Tinha gostos extensos e pouco main stream. Não era assim por opção mas intuitivamente gostava de coisas ecléticas, desconhecidas, informais... quase outkast.
Acima de tudo tinha como certo que a idéia que tinha de mim era muito diferente daquela que faziam aqueles que me conheciam.

Estava um nevoeiro espesso como a espuma do meu expresso e suspirei enquanto imaginava a humidade a encaracolar o meu cabelo assim que colocasse um pé fora do café.
Olhei para o relógio e percebi que já estava atrasada. Teria de apanhar um táxi, lá se ia o orçamento. Corri para a rua e mesmo no meio de todo aquele nevoeiro apareceu um.
Tinha dois empregos: era tradutora freelance para uma companhia de produção e trabalhava num pub onde actuava nas noites de “open mic” sempre que alguém precisava de um acompanhamento em viola ou baixo.

Depois de uma reunião chata que resultou numa enorme dor de cabeça e numa volumosa pasta de material a traduzir sai novamente a correr para o segundo turno.
Ao contrario do costumeiro fim-de-tarde pachorrento que eram as 3ª feiras não conseguia entrar pela porta principal e tive de ir pela de serviço.
Havia tanto que fazer atrás do balcão que nem tive tempo de perceber o que se passava. As empregadas de mesa davam risadinhas nervosas e diziam que ele ali estava.
Mais um actor ou alguém assim... estávamos perto de Leicester Square não era de admirar. Era um fru-fru imparável e o gerente da sala agradeceu-me não ter ficado eclipsada.

Céus até dizer o nome dele em voz alta me fazia cócegas no céu da boca.
Mais uma vez... uma história de era uma vez!
Era uma vez um rapaz e era uma vez uma rapariga!
O ele estava de beanie de tricôt negro na cabeça, os jeans gastos, os tênis pretos novos em folha e um casaco pesado. Entrou apressadamente para a cozinha e dirigiu-se a mim com um olhar de “ajudem-me!”
Belisquei-me e imaginei o meu rosto vermelho pimentão.  Seria uma miragem?
Pode indicar-me uma saída discreta?
Ele estava mesmo a falar comigo. Tonta, dai o comentário do eclipsada – Pode sair pela porta de serviço. Quer que o leve lá?
Ele acentiu seguindo-me. Eu ia enrolando o cachecol ao pescoço e apertando o casaco. Sai primeiro para o beco e certificando-me que não havia ninguém. Percorri-o e assinalei-lhe que o caminho estava livre, e segui para a esquerda. Fui imediatamente abordada por papparazis e uma imensidão de mulheres. Já se tinham apercebido da sua ausência lá dentro. Segui sem dizer nada, esperava que ele tivesse escapado.
Uma daquelas coisas estranhas que só nos acontecem em sonhos tinha acabado de me acontecer a mim. Lindos olhos... tinha que ligar à minha amiga e contar-lhe, especialmente contar-lhe do sotaque.
Depois da realidade, sonhei com ele toda a noite. Como uma adolescente, que já não era. Sonhei com o homem e não com as personagens que interpreta.
Passei o dia na produtora e quando cheguei ao pub estava o mesmo marasmo do costume aquela hora. Apareceu uma ou outra rapariga à procura dele, a notícia tinha-se espalhado.
Os dias seguintes foram sendo cada vez mais parecidos com  aquele que era o funcionamento habitual e dele nem sombra. Afinal porque voltaria ele ali?
Na semana seguinte John, o cozinheiro, partiu o pé enquanto estávamos na pausa de 15 minutos. Tentava fazer um malabarismo com tomates. Como sempre a calçada estava escorregadia  da chuva miudinha que caia insistentemente todo o santo dia. Sempre achara os britânicos um tanto ou quanto loucos mas este John era realmente desvairado.  Eu e a Sam fomos dispensadas até terem novo cozinheiro e assim pude aceitar trabalho como interpréte numa série de eventos para promover aquele que seria o novo blockbuster da minha miragem com beanie.
Viu-o de passagem na 1ª noite. Estava com um director de estúdio norte-americano que odiava actores e guionistas e tudo o que não fosse ou ele próprio ou lucro. Logo, passei a noite a traduzir números para italiano e espanhol e a ouvir piadas acerca das minhas sardas.
Nas noites seguintes ele e o elenco não estavam presentes e eu pensava que a vida tinha voltado ao normal.
Quando me ligaram da produtora a pedir que fizesse novamente de interprete numa reunião apetecia-me manda-los passear. Quase não dormia à uma semana e pouco tinha ido à faculdade. Mas não podia dizer que não a Miss Bronte e ao pagamento, sabia que era generoso, muito generoso.
Na reunião estava todo o elenco(ele sem beanie), a equipa de produção e realização, o tal big boss americano egocêntrico e a equipa de marketing. Falando todos eles a mesma língua não percebia o porquê da minha presença.
Que se lixe!- pensei eu enquanto me servia de mais uma chávena de café, o pagamento era tão bom que podia parar os turnos duplos no pub e ficar desafogada por uns tempos. Quando ele falou comigo entornei o café na minha camisa branca. Entre pedidos de desculpas e  tentativas de me secar ofereceu-se para me emprestar uma que tirou de uma sacola. Já imaginava a minha cara vermelha. Alias o rubor devia já estar instalado da raiz dos cabelos à pontinha dos dedos dos pés.
Com a camisola dele vestida continuei na reunião entre olhares cruzados e um ou outro sorriso maliciosos. Felizmente só me pediram para traduzir as notas das secretárias porque estava inebriada com toda aquela atenção. Ele convidou-me para jantar com ele e uma vez que eu voltava ao pub, combinamos uma ceia tardia.
O turno passei-o em alvoroço repreendendo-me sempre pelas atitudes juvenis infundadas, ele era um homem como os outros. Quando ele não apareceu no fim do meu turno esperei um pouco na rua mas acabei por aceitar boleia da Sam e do Nat.
Depois de um duche e de muita autopenitência por acreditar em contos de fadas modernos, enrolei-me num roupão e aterrei no sofá. Foi com surpresa que o vi do outro lado da porta às 3 da amanhã com um cesto de piquenique na mão. Ok desta vez estava mesmo a sonhar.
Quando finalmente abri a porta ele já se dirigia ao elevador e eu corri atrás dele envolta num roupão de banho pelo corredor a sussurar o nome dele e um wait, wait. Quando ele se virou ao invés de me sentir ridícula ou feia sentia-me enlevada e ofegante mas não da corrida. Segundo ele tinha-se atrasado e conseguiu a minha morada com a Miss Bronte. Entramos para a minha minúscula sala e lá ficamos: ele no chão e eu no sofá. Percebi que entretanto amanheceu pois pelas frestas da janela entrava já a primeira luz difusa da manhã. Parecia-me um sonho, saberia ele que era uma admiradora do seu trabalho? Que eu pobre mortal que estava a conversar com ele há mais de 5 horas seguidas, e flirtava timidamente, já tinha visto todos os seus filmes. Que tinha aliás alguns na minha estante?
Felizmente passamos mais tempo a falar de livros e de musica, se ele olha-se para debaixo da tv veria um dos seus últimos filmes em blue-ray. Acho que ai sim eu ia ficar sem bochechas tal a afluência de sangue.Ele era surpreendentemente complexo e fluente não me parecia muito afectado pela fama e sucesso. Peguei-lhe no pulso e olhei para o seu relógio. Já estava atrasada de novo. Dei um pulo do sofá e apercebendo-se da minha pressa ofereceu-se para me dar boleia. AO entrar no wc não devo ter fechado conevientemente a porta, o que ele pensou ser um convite para entrar. Vi-o pelo espelho quando me levantei de calçar as botas. Estava com o torso desnudo e sem pensar tapei os seios com uma mão e a boca com outra. Corei, para não variar e estremeci quando ele passou a mão pela tatuagem que me serpenteava as costas. Baixei os olhos e fiquei literalmente sem um único pensamento no cérebro. Nem sabia como respirar. Não conseguia tirar os meus olhos dos dele. Estava refém do espelho.
Quando ele levantou os braços e despiu a camisola senti uma corrente electrica percorrer-me.  Saiu-me um não sussurado quando ele estendeu as mãos na minha direcção e sai da casa de banho a correr. Não ia ser uma conquistazinha! Ele que me tomasse como uma louca que não queria nada com ele. Sim eu mera mortal louca! não aceitar sexo, de certo maravilhoso, com um deus do Olimpo... porque... bolas, ele parecia mesmo sê-lo mesmo depois de uma noite em claro. Acabei de vestir-me e estranhei não ouvir a porta bater. Ele estava no sofá com uma chávena de café nas mãos e um olhar entre o divertido e o estranho. Fiquei morta de vergonha e nem sabia o que dizer. Percebia que tivesse dado a impressão errada. Talvez não tivesse disfarçado a minha admiração assim tão bem.
Falamos ao mesmo tempo. Ambos a pedir desculpas e rimo-nos. O embaraço inicial desapareceu. Expliquei-lhe que a porta nunca fechou bem, que desculpa-se o mal entendido.
Ele perguntou-me se sempre queria a tal boleia e saímos os dois em silencio.
Aparentemente o sonho tinha acabado. Entrei num Mercedes descapotável, o que era ridículo em Inglaterra. Estava sempre a chover quando ia tirar a capota: na garagem? Ele apercebeu-se e explicou-me que o carro não era dele. Era alugado até terem promovido o filme. Deixou-me à frente da biblioteca da faculdade e eu agradeci-lhe a noite simpática.
Percebi que ele tinha ficado realmente chateado e não insisti em mantê-lo ali. Sai para a chuva e entrei a correr na biblioteca. Parecia que afinal sempre tinha o seu quê de menino mimado e muito problemático. Encontrei-me com o meu professor orientador. Ele era um daquele s quarentões que adoram alunas de mestrado e tem uma aura muito intelectual e  sensual. Bem, eu gostava das nossas conversas e nada tinha a dizer da forma como me tratava. Combinou encontrar-se comigo no pub antes do meu turno começar com alguns livros que me poderiam ajudar. Afinal nem tudo era mau!
Quando entrei no metro já tinha mergulhado na melancolia. O toque dele persistia na minha memória e ... na minha pele. E os seus olhos azuis... tão quentes e doces... o riso rouco... as nossas conversas madrugada a dentro. Entreguei os materiais traduzidos a miss Bronte e recebi os meus cheques. Ficamos a conversar um pouco e fui-me embora.
Fui a casa buscar o computador e mudar de roupa. E se estava melancólica anteriormente... quando me apercebi que o perfume dele estava entranhado naquele cubículo... arrependi-me de ter querido ser diferente das outras mulheres que devem orbitar em seu redor. Raios devia te-lo possuído com a lúxuria e a curiosidade de um cientista condenado ou de uma ninfomaniaca. Ri-me , não fazia sentido nem para mim. maldita timidez e estranha forma de ser a minha. Ele iria lembrar-se por certo de mim, a doidinha que dava os sinais errados.
Estava embrenhada em livros com o meu professor quando recebi uma mensagem dele a perguntar se amanhã estava livre para o pequeno-almoço. Parecia que Bronte tinha dedo nisto também. Sorri mas respondi que não. Se por tão pouco tinha ficado no estado em que me encontrava agora nem queria imaginar se por acaso algo mais acontecesse entre nós. Se ele fosse mesmo o que aparentava ser alguém tão idêntico a mim. Era uma ilusão mas eu era a borboleta e ele o sol. Não queria queimar as asas. O meu lado consciente lutou com o meu lado sonhador e apaixonado durante toda a noite e o adormecer foi dificil. Passaram dois dias em que o telemóvel esteve mudo, no que lhe dizia respeito. Tornava-se dificil entrar na sala ou na casa de banho. Tonta!


No Sábado há noite era a ante-estreia do seu filme.
Estava a meio do jantar pré- teatro com alguns amigos quando miss B. me ligou dizendo que precisava muito de mim. A interprete italiana não tinha aparecido e tinham jornalistas e uma comitiva de políticos italianos por lá. Lá se ia o meu jantar fino.
O meu traje não era o mais indicado mas se não tirasse o casaco e o cachecol ninguém repararia no decote do vestido. Já no meu cabelo indomávelmente encaracolado....
Miss B recebeu-me com um sorriso agradecido e ajudou-me a fazer um coque no meu cabelo indomável. Adorável senhora! Sabia que ela poderia arranjar outra interprete mas sabia que precisava pagar as propinas e toda a imensidão de contas que se paga quando se teima em ser independente.
Acompanhei de perto a comitiva política enquanto o via pelo canto do olho, deslumbrante com o seu fato Armani  dando entrevistas, assinando autógrafos e sorrindo para as fotografias.  Quando entrámos no Odeon entreguei os auscultadores com a versão áudio do filme dobrada e despedi-me do grupo italiano.  Gostava de ficar e ver mas já não era ali necessária. Fiquei de fora como as restantes interpretes e conversávamos enquanto esperávamos por miss B. Esta tinha ainda necessidade dos nossos serviços para a festa que se seguia. Lá se ia também o teatro!
Sai para ligar à Julie, parecia-me que ia necessitar de companhia depois daquele serão. Estava um grupo a fumar na rua. Virei-lhes as costas enquanto falava com ela. Olhei para o relógio ... ainda ia demorar a terminar. Voltei a entrar e fui caçar café. Aparentemente ele também.
Foi bastante cordial e apresentou-me ao actor ao seu lado. As outras raparigas já se encontravam ao lado deles. Pedi um expresso duplo mas como é lógico a empregada não sabia mexer na máquina. Fui eu tirá-lo e instalei-me num dos sofás. Estava, como sempre em todo o lado, o aquecimento demasiado alto. Tirei o casaco e o cachecol antes que derretesse e comecei a procurar o livro que trazia na mala. Senti o sofá afundar ao meu lado e desviei os olhos do livro.
Queria saber que estava eu a ler. Um livro sobre fadas modernas. Ele perguntou-me se admirava o género e percebi o que estava implícito. Sorri um sorriso rasgado e completamente vermelha respondi-lhe que sim e que tinha a saga completa dos livros em que se baseava a personagem dele. E sim sabia que ele não era a personagem tal como não era nenhuma das outras que já tinha protagonizado. Ele tocou-me na hera que subia pelo meu pescoço e se aninhava na minha nuca.
-Gosto mesmo da tua tatuagem!- e ficamos assim os dois a olhar um para o outro. Desta vez sei que não era palavra que não sairia da minha boca.
Vieram busca-lo porque o filme estava a terminar. E eu fiquei ali vermelha sem saber o que fazer. Pus o cachecol, estava de tal maneira acelerada a minha respiração que os meus seios pareciam querer saltar do decote.
Não nos cruzamos mais naquela noite até eu conseguir finalmente ir embora. Meti os italianos já bêbedos na limusine e pedi que me chamassem um táxi. Por mais segura que seja uma cidade às 5 da manhã vaguear pelas ruas é loucura. Uma enorme limusine parou junto à entrada do hotel. Que não fossem outra vez os doidos dos italianos. Era ele. Iam continuar a comemoração eu era convidada. Entrei e quando passei por ele sussurrou ”a tatuagem também”. A limusine deu a volta ao quarteirão e voltou a entrar no hotel. Ele estava lá hospedado mas assim ninguém saberia. Percebi que nenhuma daquelas caras era conhecida. Enquanto subíamos entendi que eram amigos dele, comuns borboletas como eu. Passámos o tempo a brindar e a conversar. Ele e dois amigos continuavam a discutir música mudando constantemente de cd quando percebi que já era perto do meio-dia. Tinha que ir. Ele levou-me ao elevador descalço e desgrenhado. Aquele cabelo era uma escultura de arte pós moderna. Encostei-me à parede enquanto esperava pelo elevador e ele colocou um braço sobre a minha cabeça e aproximou-se.
Sabes acho que és ainda mais desajeitada nesta coisa que eu. Ou estás a jogar ao gato e ao rato?


Não faço jogos. Não tenho sorte ao jogo.
Hum...
Senti a mão dele a subir pela minha coxa até encontrar o fecho do vestido e puxa-lo lentamente. Passou a mão pelas minhas costas e percebeu o que eu já sabia, não tinha obstáculos.
Hoje vou para Paris. Vou ter saudades dela posso despedir-me?- virou-me lentamente e beijou toda a superfície da hera nas minhas costas. Esta parecia ganhar vida com a respiração quente na minha pele. Parou na nuca e virou-me para si. Desta vez acariciei-lhe o cabelo. – Queres vir comigo?
Tentador, muito tentador mas não posso. – por esta altura beijava-me o pescoço. Ainda cometia um atentado ao pudor ali mesmo. E dizia que não tinha jeito para seduções. Treta para vender revistas, ele estava a sair-se muito bem.- Mas prometo estar por cá quando voltares... não vás ter saudades da tatuagem.
O maldito elevador chegou. Ele puxou-me o zíper e deixou a mão na minha nuca.
- Tens certeza?- acenti que sim. – Até daqui a dois dias então!
O resto do dia passou e apercebi-me de que tinha terminado quando o Nate e a Sam me deixaram em casa. Tive sonhos deliciosos nas duas noites que se passaram. E durante o 3º dia estive em ânsias que o telemóvel tocasse. Estava a sair da produtora quando a miss B me disse que esperavam por mim na sala de media.
Ele estava lá sentado numa das poltronas. Para alguém desajeitado ao andar ele moveu-se com a graça de um felino. Pus-me em bicos de pés e beijei-o. Porque não? Já estava perdidamente enredada nas teias dele. Aquele homem sabia beijar, se houve cursos de beijo na boca ele tinha um diploma de mérito. Ficamos a beijar-nos nem sei quanto tempo.
-Vamos sair daqui?- acenti.- Encontra-te comigo na garagem em 10 minutos.
Respirei fundo e prendi o cabelo que em algum momento tinha ficado emaranhado. Compus a roupa e sai.
Miss B piscou-me o olho e disse-me para descer até ao primeiro nível.
Um motorista abriu-me a porta de um enorme mercedes. Ele começou a conversar comigo e eu fiquei a pensar se teria sido imaginação minha a fogosidade do beijo minutos antes.
-Hum... onde vamos?
Ele sorriu: -Para o hotel?
-Ok!
Ele pegou-me no rosto e beijou-me de forma doce. O carro parou.
Encontro-me contigo na suíte da outra vez.
Havia flashes por todo o lado. Subi pela garagem e ele esperava-me à porta do elevador. Se da outra vez eu ia cometendo um atentado ao pudor desta fez... cometi mesmo.
 Cometemos...
O tempo passava entre as idas e vindas dele e a minha recusa em acompanha-lo. Não sabia em relação a ele mas eu estava perdidamente apaixonada. Lá se iam as asas!
Começaram a surgir rumores de uma relação dele com uma actriz/modelo. Poucas pessoas sabiam do nosso “relacionamento” e eram ou amigos dele ou meus amigos.
Fiquei com ciúmes mas não disse nada.
Um dia disse-me que ia acompanha-lo a uma estréia. Pensei que seria como das outras vezes em que eu me manteria à parte com a agente dele. Mas desta vez não me largou e apresentou-me orgulhosamente como a sua namorada. Imaginei a cara das minhas amiga em Lisboa e sorri.
Assim que pôde, estando indecisa entre espanca-lo ou beija-lo... beijei-o!
E entre a dúvida entre o viviam felizes para sempre e a negação dessa hipótese decidimos que o viver feliz por agora era o ideal para ambos. Afinal... ambos adorávamos o “Last kiss” dos Pearl Jam...
Talvez fossemos os últimos parceiros de beijo um do outro.

       



 

publicado por crowe às 22:07
tags:

30
Dez 08



“You got what you need”... levantei-me de um salto quando o rádio iniciou o despertador. Ainda era noite cerrada, raios era sábado... tinha-se esquecido de o desligar?!  Oh destino estranho! Com tanta música para a acordar a meio da madrugada tinha que ser aquela! Claro que sim, com o seu estranho fado só podia mesmo. Colocou-a mais baixo e aninhou-se no edredão ouvindo a chuva que caia de mansinho! Tinha ido levar a Sara, a prima dele, ao aeroporto naquela noite. Continuavam a trabalhar juntas mas em escritórios diferentes. Mas sempre tinha dito que queria ir morar uma temporada a Londres, não podia queixar-se certo? Estava a concretizar velhos sonhos, a atingir os seus objectivos. Lamentava o momento em que os poderes do universo ou que raios eram se tinham unido para me fazer feliz profissionalmente. O telefone tocou. A Sara já tinha chegado a Lisboa, ia já a caminho de casa. Ouvi a musica que tocava no auto-rádio: Morcheeba. Ia no carro do primo de certeza. Não fiz comentários, desejei-lhe uma boa noite e combinei falar com ela na segunda-feira quando voltasse ao escritório. Senti uma picada de remorso. Podia ter ficado em Lisboa com ele. Nada me obrigava a ter ido aquele ano para o escritório de Londres mas não podia desperdiçar a oportunidade para tentar um namoro com um homem seis anos mais novo. Poderíamos ter mantido a relação que tínhamos mas ele tinha ficado profundamente magoado comigo. Era tudo ou nada. Lógico que não esperava que ele ficasse um ano a minha espera ou tivesse comigo um relacionamento a distância mas continuava apaixonada por ele e senti saudades de tudo, especialmente de o ver acordar estremunhado com o seu relógio Diesel de ponteiros florescentes.
Estava a adormecer quando o telemovel tocou. Numero privado, o coração deu uns pulinhos e pensou que talvez ... atendi sem fôlego. Era a Sónia, estava em casa da Sara. Estavam a ver as fotos da viagem. Como estavam as duas a falar ao mesmo tempo disse-lhe que pusesse em voz- alta. Assim falaríamos todas. Sorri e pensei no quanto tonta tinha sido. Depois de quase quatro meses ele não ia ligar-me so porque me tinha visto de passagem uma ou outra vez quando estava em vídeo- conferencia com a Sara. Ninguém tinha tido conhecimento do nosso relacionamento e aparentemente este continuava no segredo dos deuses.  A Sónia mencionava a minha falta de fôlego ao atender o telefone e insinuava que de certo eu teria companhia. Ri-me.
-    Sónia, juro que tenho sido mais casta estes últimos meses que uma virgem. Tenho sido tão bem comportada que qualquer dia ou entro em combustão espontânea ou tenho o meu hímen de volta.- e rimos todas.- Mas que fazes tu ai, foste buscar a Sara?
-    Não, o primo foi busca-lá! Mas agora conta lá a história desses desamores. A Sara disse que tens uns amigos muito interessantes. Aliás estão aqui nas fotos com vários. Conta lá tudo desembucha anda.
-    Que queres que te diga? São bonitos e interessantes. Uns são colegas de trabalho outros amigos dos copos. Saímos e divertimo-nos. Não tenho interesse em nenhum dessa forma nem vice versa. Agora quero saber quando cá vens!
-    Hum pois... Até parece que o Connor não te manda flores todos os dias. Quando lhe falei em tulipas nunca mais te mandou mais nada durante a semana. Há tulipas em todo o lado lá no escritório as secretarias adoram-na de tanta flor que recebe. Ela nem lhe liga Sónia dá pena. Que desperdício de homem bonito.
-    Aiiiiiiiiiii, deixa lá de me arranjar namorado. Não tenho e não quero.- Exasperei. Não me apetecia aquela conversa depois da musica que me acordou aos berros. – Estou cheia de sono e tenho planos para o pequeno-almoço. Falamos amanhã?
-    Está bem, afinal são 3 da amanhã!
-    Cá são 4 meninas. Deixem-me dormir. Beijos imensos adoro-vos!
-    Beijinhos nossos. E... ah... o meu primo manda-te um beijo!- acho que o meu cérebro emudeceu de espanto e a minha boca não se mexia. Ouvia-a falar com o primo mas nem descortinava nada.
-    Hum... para ele também!
-    Ah não me pediste nada disso. Não vais nada pedir-lhe...- falava com ele não comigo.- Olha vou passar-lhe o telemóvel.
-    Ana! Olá!- era mesmo, mesmo, mesmo ele.- Como estás?- percebi que tirou o telefone de alta voz.
-    Bem obrigada e tu?- percebi que elas riam e conversavam, mas, as vozes estavam a distanciar-se e pareceu-me ouvir uma porta fechar.
-    Contente por te ouvir.- a voz dele era terna.
-    Ah sim?! Se te apeteceu conversar porque não ligaste antes?
-    Sabes bem porquê!- pausou.- A Sara diz que te estás a dar bem ai... pareces ter vivido ai toda a tua vida. Parece que tomaste a decisão acertada então.
-    Sabes uma coisa? São 4 da manhã e tive uma semana dificil, não me apetece falar por charadas. O que queres saber exactamente?
-    Vou para Nova York amanhã e daqui a uma semana estarei em Londres... na sexta-feira à noite. Podemos ver-nos?- fiquei muda de espanto e contente. Tinha mesmo saudades de o ver. Perante o meu silêncio:- Sinto mesmo a tua falta. Queria só estar contigo.
-    Liga-me. Tenho sempre um carro à disposição aqui, posso ir buscar-te ao aeroporto se quiseres. Precisas de alguma coisa... mais?
-    Oh não estás a pedi-lhe que compre coisas pois não? Trouxe já imensa coisa para aquela tua namorada chata. – Ouvi a prima dizer-lhe. Senti ciúmes e fiquei furiosa. Passámos horas infindáveis no Harrod’s e em todas as lojas de Sloane Street. 
Well done me.
Mas de que iria eu queixar-me? Eu tinha sempre recusado uma relação com ele, tinha-me vindo embora mesmo depois daquele gesto incrivelmente romântico. Ia queixar-me por ele seguir o meu conselho e ter deixado que a vida continuasse? Por ele ter sido humano? Sabia que não devia queixar-me mas senti ciúmes e dor... uma dor estranha... mas disfarcei e aparentemente muito bem.
-    Va lá Sara! Há algumas lojas que ainda devem ter algumas coisinhas por vender. Além disso não custa nada dar um pulinho com ele ao Harvey Nichols! Farei dele o namorado ideal...
-    Hã?
-    No que diz respeito a prendas caras claro!- rompi numa gargalhada e tive vontade de contra-atacar com o Sean mas... afinal tinha 31 anos bolas.- Vem em paz meu caro e traz a lista, eu levo-te a umas lojinhas e depois... bem, meninas e menino... vou dormir um bocadinho... tenho um dia cheio amanhã.
...
A semana passou a correr comigo a pensar que raios ia fazer com ele em Londres. Mandou-me uma mensagem na sexta-feira a meio da tarde dizendo o numero do vôo e o horário. Fui o mais cedo que pôde para o aeroporto não fosse o trânsito pregar-nos uma partida, estava nervosa como se fosse uma debutante. Estava com o meu habitual termo de café na mão quando o vi. Seria possível que estivesse ainda mais bonito? Trazia um dos seus jeans desbotados e uma das camisas que lhe tinha oferecido... “O Diabo vestia Prada”. Sorriu-me, se já me parecia que o coração ia saltar pelo decote com aquele sorriso tive certeza de sairia disparado. Abraçamo-nos e com os cumprimentos ditados pela boa educação. Eu franzi o sobrolho. Caminhamos para o carro falando da sua viagem e de Nova York.
Cáca de conversa! Quando entramos no carro do sempre bem humorado Roy disparei:
-    Acabando com a conversa de chacha... Vais dizer-me então onde ficas hospedado? E porquê tanta questão em estarmos juntos? Quererás uma cartinha de referencia para a namorada?
-    Ex-namorada!- riu-se despenteando o cabelo já de si desgrenhado.- Só cá fico esta noite. Tenho um vôo às 8 da manhã.Não era o acertado. Podes deixar-me num hotel que conheças? Tinha pensado no Ritz... se tiveres disponibilidade poderíamos jantar.
Assenti, iríamos jantar, com aquela corrente electrica entre nós iluminaríamos a sala de qualquer lugar. Levei-o ao hotel e marquei mesa num dos meus restaurantes favoritos: O Maze, enquanto esperava por ele. Voltamos ao carro e o espaço parecia-me cada vez mais apertado, tinha calor...
Jantamos e conversamos como velhos amigos mas, na minha cabeça o filme era outro e só uma bolinha vermelha não chegava. Pediu-me que o deixasse no hotel. Assim o fiz completamente contrariada. Aparentemente aquele encontro servia para uma coisa: ele mostrar-me o que tinha perdido. Raios, voltei atrás! Quando ele abriu a porta entrei sem dizer nada. Beijei-o e entrei literalmente em combustão espontânea. Raios de miúdo que me deixava fora de mim e não me saia da cabeça. Quando acordei ele já se tinha levantado e estava a preparar-se para sair. Os papeis invertiam-se. Beijou-me muitas vezes em despedida mas nenhum dos dois disse nada.
Passei o fim-de-semana melancólica e durante a madrugada levantei-me várias vezes para ligar-lhe mas não o fiz. No Domingo à noite quando chegava de um passeio percebi que alguém se mudava finalmente para o apartamento do lado.  Todas as tardes quando chegava começava a musica. Parecia uma serenata para mim, era uma idiotice eu sabia mas se ouvia uma musica no dia seguinte ela tocava ou tocavam musicas de que eu gostava. Não que os novos inquilinos pudessem saber dos meus gostos musicais mas a realidade é que parecia. Nesses momentos sentia ainda mais saudades dele, do Duarte, e várias vezes pensei em ligar-lhe. Estava  a ficar louca!
O seu carro estava a dois lugares da minha mota. Era um audi descapotável igualzinho ao que ele tinha. Fazia um som de gato a ronronar quando começava a trabalhar.
Aquelas serenatas continuaram na semana que se seguiu e tive mesmo que lhe ligar quando tocou rolling stones, o que toda a semana parecia um mote. A realidade é que até me parecia sentir o cheiro dele no hall. Louca, mas mesmo louca! Porque me tinha ido eu meter na cama dele outra vez?! Não me saiam as imagens da cabeça e as sensações do corpo.
Ele atendeu  e eu sem conseguir controlar a língua pedi-lhe que fosse meu namorado.
-    Namorado? Hum, mas que mudança...
-    Não sei como resolver isto ainda me faltam uns meses aqui mas nem que passe os fins-de-semana em viagens de um lado para o outro... acho... sei... que preciso mesmo de ti! (tinha custado muito a dizer) Raios sinto o teu cheiro em todo o lado no meu prédio e nunca estiveste aqui.
-    E da musica, gostas da musica?- A campainha tocou.
Não podia ser ele... corri para a porta. Ele estava lá de iphone na mão. Atirei o meu para o chão e saltei para o colo dele. Entramos aos beijos e quando me pousou no sofá agradeci pela primeira vez a sua dimensão. O vestido subiu e as cuequinhas desapareceram em segundos. Parei-o.
O Olhar dele estava confuso e toldado.
- Vamos para tua casa!- e comecei a levantar-me. Andando para a porta.
- Mas, porquê?- mexia no cabelo desgrenhado e compunha as calças.
- Porque quero acordar contigo. A partir de agora passamos mesmo as noites juntos. Queres dormir comigo?
Enquanto saíamos de um apartamento e entravamos noutro o Jagger cantava:

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You get what you need

You get what you need--yeah, oh baby
 

publicado por crowe às 22:28
tags:

21
Mai 06
  

A tua respiração era baixa e suave como a de um bebé e fazia-me cócegas no umbigo onde repousavas adormecido. No lusco-fusco via o teu relógio Diesel... como se o tempo ainda precisasse de fuel! O tempo que passava tão depressa ainda era derivado de gasolina... isso sim, era digno de ironia! E daria uma gargalhada não fosse ter a certeza de que te iria acordar. Voltei a recostar-me nas almofadas e esperei mais um pouco. Não acordavas... sai de mansinho enquanto a tua respiração acariciava a superfície das almofadas.

 Roubei umas túlipas do jardim da tua vizinha e de túlipas a sair da mochila lá fui eu até ao escritório. Mota estacionada no subterrâneo e um chorrilho de cumprimentos e pareceres bem-humorados acerca das minhas flores lá cheguei ao meu próprio gabinete. O tempo durante aquela madrugada ainda estava decorrer a alta velocidade, parecia marcado por fuel com octanas para carros de fórmula1. Entrei no escritório a rir.

 Há hora de almoço lá estavas tu no hall do edifício, à espera da tua prima. Como sempre, passámos um pelo outro com cumprimentos cordiais e semi-sorrisos. O teu olhar estava divertido e imaginei o que te ia na cabeça...Sabia o que ia pela minha!

 Quando cheguei do almoço ouvia-te a falar na sala de reuniões... como sempre as mulheres lá do escritório estavam maravilhadas contigo, umas porque queriam o miúdo mais novo para elas, outras queriam apresentar aquele “bom miúdo” às filhas, sobrinhas, enteadas... se elas soubessem?! Senti pela primeira vez uma pontinha de culpa... vivia bem com a relação que tínhamos! Sem compromissos, sem promessas, sem falsos “Amo-te” para não magoar e prender... vivíamos o que sentíamos sem ninguém a chatear-nos! Mas sabia que um dia darias um excelente namorado... eu, já tinha sido namorada...não tinha paciência, e não sabia lidar com certas situações... especialmente aquelas que magoam profundamente!

A Sónia ligou a acertar detalhes para o fim-de-semana em Londres... O que eu gostava daqueles fins-de-semana! Vieram chamar-me para um briefing e lá corri contigo e as tuas fãs da sala de reuniões. Passaste por mim e tocaste-me suavemente nos seios.((Hummm!))

- Prazer em ver-te! - Disseste tu em voz alta enquanto me beijavas a face. Enquanto sussurravas: Acabo o resto mais logo! - Até um destes dias mantinhas a proximidade física e ficamos a olhar um para o outro.

- Igualmente! – Espero bem que sim! –Sussurrei eu enquanto te passava a mão pelas costas, protegida pelo blazer. - Até um destes dias então! Apareça para a semana e tome um chá connosco! - Bolas ele era mesmo novinho...a diferença entre nós eram uns seis anos mas... por vezes senti-me uns 15 anos mais velha... uma sénior!

 - Chá?! Algum motivo em especial? – Perguntaste como se não soubesses e o teu olhar brilhava.

- Vai para Londres este fim-de-semana. Coitados dos ingleses… vai deixar a cidade do avesso. – Dizia a prima dele e sorrir e empurrou-o para a saída. - Temos de começar! Até depois!

Despediu-se novamente da porta desejando-me boa viagem… tinha aquele sorriso maroto no olhar.

 Quando a reunião finalmente terminou já era noite. Voltei a colocar as túlipas na mochila e lá fui eu qual esotérica maluca pela rua até casa. Ainda a recordar o teu toque. Ligaste perto da meia-noite para saber se lá podias passar para te despedires... Uma despedida que durou até à hora do táxi me vir buscar! Voltamos a beijar-nos com o taxista a desesperar.

- Não cedes mesmo? -Querias levar-me ao aeroporto. Acenei que não! Passei a viagem a pensar... sentia-me ainda embriagada com o teu cheiro e as sensações de prazer impressas por todo o meu corpo. No limbo entre o sono e a realidade lembrei-me de como nos conhecemos: numa daquelas festas de Verão da empresa em que a tua prima te tinha levado como par. Passámos semanas a trocar cumprimentos de circunstância. Até que numa das muitas noites de serões chatos de trabalho nos tinhas levado um “jantar da meia-noite”. E mesmo depois do trabalho pronto ficámos a conversar Os três e pela primeira vez percebi que havia mais em ti do que o palminho de cara e acabámos por fazer faísca.

Tu, insistentemente, começaste a aparecer em todo o lado: jantares de empresa, saídas de colegas, durante o expediente… Fingia que não percebia. Até ao aniversário da tua prima em que finalmente sucumbimos os dois. Já lá iam uns cinco meses.

Quando sai de uma reunião na Segunda-feira e entrei no escritório lá estavas tu à minha espera para matar saudades. O que queria dizer que não faria mais nada durante aquela tarde!

Felizmente as paredes não contam… Eu era uma mulher experiente mas tu, davas à palavra inventivo um novo significado. Tu e o teu tempo a Diesel... Algumas semanas depois estava eu novamente a levantar-me de mansinho quando acordaste... andavas algo estranho...Imensas prendas, imensas visitas de surpresa ao escritório... apoiaste a cabeça na almofada de forma a só te ver os olhos... Adorava ver-te acordar!

- Já vais? - Acenei que sim enquanto calçava as botas. - Mas será que não podes dormir cá uma noite? Só uma que seja?

 Parei. Nunca tínhamos falado nisso. Mas não me sentia à vontade. Era algo que não fazia e ele sabia disso. Ele queria que as coisas fossem diferentes! Uma coisa séria! Estava apaixonado por mim. Bem, eu… estava apaixonada… por ele (e pela minha liberdade também). Sabia-o bem mas nunca lho dizia. Nunca ninguém havia impregnado toda a minha existência como ele. Ficámos pelo silêncio e eu não roubei túlipas naquela manhã, ele não apareceu durante semanas na empresa para ir almoçar com a prima. Ouvi várias vezes o comentário: Andava mal de amores! Por parte das suas diversas fãs… E céus... exasperava! Ciúmes!

“You can’t always get what you want” era um verso de uma música dos Rolling Stones ... but you always want what you can’t get! Parecia ser o meu caso. Quando finalmente me apaixonei, tinha de ser por alguém que dificilmente poderia vir a realmente ter...E tinha medo do sentimento... de me sentir presa...o engraçado é que tantas vezes tinha brincado com ele por ser mais novo... mas...ele...sabia exactamente o que queria!

Certa manhã, entrei na sala do café e lá estava ele. Com o grupo do costume. Bem disposto, com cheiro de banho acabado de tomar, cabelo ainda húmido. Olhava para mim directamente e os olhos começaram a despir-me! Corei como se fosse uma miudinha no liceu.

Com os habituais cumprimentos cordiais, comecei a preparar o meu café! Ele levantou-se e parou ao meu lado enchendo a sua chávena.

- Mudaste de champôs! – Acenti continuando o que fazia. – O teu cheiro, no entanto, continua na mesma! – E cheirou-me inalando profundamente.

Virei-lhe as costas e sentei-me à mesa com as restantes. Ele veio sentar-se ao meu lado. Entrei na conversa. Apercebi-me de uma mão na minha coxa. Não olhei para ele. Elas continuavam a falar de um livro que lhes tinha recomendado enquanto eu, fazia um enorme esforço para conter gemidos e estremecimentos. A tua mão tinha encontrado o seu caminho e encontrava-se agora a separar-me as pernas e a acariciar zonas erógenas que eu desconhecia. Era uma tortura… Não aguentei e estremeci…

- Está bem? – Eu fiz um gesto com a cabeça. Se falasse naquele momento todas perceberiam o que se passava. - É daquela mota. Só dá trabalho e ainda por cima tem de andar sempre a trocar de roupa. Estou sempre a dizer-lhe que se agasalhe… ou melhor ainda compre um carro!

Ele continuava a sorrir e interveio dizendo que provavelmente era uma corrente de ar, ou o ar condicionado. Levantei-me e pigarreando disse que ia tomar uma aspirina. Quando julgava já estar a salvo ouvi atrás de mim.

- Ele ficou muito interessado no livro. Tens um no teu escritório, não é? Podias emprestar-lho?

Tive ânsias de o esganar, especialmente pelo sorriso satisfeito que tinha no rosto. Podia ver as minhas mãos à volta do pescoço dele mas, concordei com um acenar. Vieram ambos comigo. ((Uf! Sentia as pernas bambas)) Encontrei o livro e entreguei-lho sem o olhar e liguei a aparelhagem.

A presença dele ali dava ânsias. Sentia-me uma tonta… mas já só pensava em tê-lo ali nú e saciar o desejo e a saudade daquele sentimento que só sentia com ele. Eles continuavam a conversar e sentaram-se no meu sofá. Chamaram-na… Ela despediu-se dizendo que já voltava e ele levantou-se. Caminhei até à porta e estranhamente ele acompanhou-me. Aparentemente já tinha conseguido o que queria. Parou à minha frente e fechou a porta devagarinho. Colocou-me uma mão no pescoço e com a outra levantou-me a coxa. Arrancando-me as cuecas de um só puxão. Soube imediatamente o que se iria passar a seguir. Ele sorriu e apertou-me contra ele.

            - Ela volta! - Foi só que me lembrei de dizer. Enquanto lhe desapertava as calças. Entre um beijo e outro respondeste: - Nesse caso teremos de ser rápidos!

Quando terminámos não conseguia desenlaçar as pernas da tua cintura e sabia que estávamos ambos húmidos e a escorrer o resultado das nossas saudades. Finalmente desenlacei e colocaste-me no chão. Fiquei encostada à parede enquanto tu te dirigias à minha secretária.

- Ainda guardas os lenços e toalhetes na segunda gaveta? – Tinhas uma expressão satisfeita no rosto e a tua voz estava rouca e deliciosamente meiga. Acenti. Ia aproximar-me de ti quando bateram à porta. Fechaste a braguilha a pressa e fechavas os botões do casaco quando disse que entrasse. Pisei as cuecas que estavam no chão e pedi aos céus que estivesse apresentável. Vieram trazer-te o telemóvel que tocava insistentemente. Atendeste ali mesmo enquanto eu tentava perceber como tinham as cuecas ficado daquela forma irreparável e ele se ria. Sentei-me à secretária fingindo trabalhar enquanto não terminavas.

- Tens de ser mais cuidadosa ao sentar-te hoje. - Disseste tu. Empoleirado na minha secretária. Imediatamente apertei as pernas. Já me sentia recomposta.

- Serei cuidadosa. – Parei o que fingia estar a fazer. – Como tens passado?

- Hum já recuperaste o controlo! Bem, estive fora a trabalho! Voltei esta madrugada e vim matar saudades! Piscou-me um olho.

- Saudades de uma rapidinha? - Ele franzia o sobrolho.

- Não, de te sentir. Mas, já percebi que mais uma vez não terei o que quero.

- Pensa assim: se uma relação comigo não fosse o fruto proibido não te interessaria tanto! Falamos várias vezes disso… não nos enganámos durante o tempo que estivemos juntos! Poderias inclusive ter estado…

- Eu sei daquilo que falámos e sinceramente parecia-me a combinação perfeita. Sem compromissos e nada de mariquices sentimentalistas. Mas agora pensa tu nisto: estivemos sem nos ver? Estivemos com mais alguém? Não. Nutres sentimentos por mim e sabes disso. Só não queres assumi-lo! Estou a ser um perfeito tonto…Bem, façamos as coisas à tua maneira: já matei saudades… quando tiveres saudades sabes onde encontrar-me! E não, não vou sentir-me usado e também não estou a usar-te!

E saiu com toda a calma! Fiquei furiosa com ele, pela maneira como me tratou… Raios! Não ia dar-lhe razão, ia tratar aquele affair como todos os outros!

Dois dias depois apareci no escritório dele. Ele estava sentado à secretária a acabar um telefonema. Tranquei a porta, dirigi-me a secretária enquanto atirava o sobretudo e a mala para o chão. Coloquei-me debaixo da secretária e abri-te o fecho, percebi que ias dizer algo. Fiz-te calar… o resto ficou entregue a lembranças que pairam no teu tempo com fuel!

Aquela seria mesmo a última vez. Disse-lho… ele não comentou…

Na festa de Verão da empresa um ano depois de nos termos conhecido... lá estavas tu... encostado à balaustrada... Cumprimentámo-nos sem nos tocar. À mesa despiste o blazer e na t-shirt tinhas escrito: “You can’t always get what you want but, you can try! Can I?”

 

publicado por crowe às 01:15
sinto-me: uma contadora de estórias
música: Uiiiii foram tantas!
tags:

10
Mar 06

“You feed yourself. Make sure you have all the information, whether it's aesthetic, scientific, mathematical, I don't care what it is. Then you walk away from it and let it ferment. You ignore it and pretend you don't care. Next thing you know, the answer comes.”-Ray Bradbury

 

Quando entrei no carro as gotas de chuva deslizavam como lágrimas grossas e sentidas por todas as superfícies ao meu redor! O interior cheirava a flores frescas (as janelas tinham ficado abertas) e os bancos traseiros estavam salpicados. Uma manhã feliz com um começo choroso, não deixava de ser irónico e realmente típico… era como a vida… sempre ao contrário… nada de sinais sinónimos… mas muitos controversos e antónimos. Era a vida… numa das poucas regras iguais para todos os seres humanos.

Fui a primeira a chegar ao café, a primeira a pedir e a ser servida e quando todos os outros chegaram eu ainda sentia o calor da tua respiração no meu umbigo. Enquanto falávamos do último livro que tínhamos combinado ler para o nosso clube eu ria interiormente. A Teresa falava do Ray Bradbury como se fosse um condenado ímpio da compreensão dos restantes mortais, a Rita como sempre não tinha lido o livro todo, o Daniel, o Paulo e o Pedro reclamavam com ela e com a Teresa. O Tomé olhava para mim cúmplice, tinha partido dele a proposta, logo secundada por mim logicamente!

- Importaste de dizer algo de construtivo Tomé? Ou a Ana, a Ana podia dizer algo! – Pedia já desesperado o Tiago.

Com a cara mais séria e contendo a custo um sorriso lá me saiu:

-“At 7 a.m. all my voices start talking inside my head, and when it reaches a certain pitch I jump out and trap them before they're gone. Or I shower and then the voices talk. You solve problems not by thinking directly of them but allowing them to ferment in their own time.” Palavras do Bradbury! Eu tenho ideias sobre o livro, opiniões diversas mas o que estou a maturar na minha cabeça são as vossas frases soltas.

 

A Teresa largou o scone aproximou-se de mim e de uma forma que só ela conseguia proferiu:

- Ela hoje não dormiu! Tem na cabeça a germinar ideias… hum…

Olharam todos para mim. Era verdade tinha dormido muito pouco e se eles soubessem do restante…

Enquanto dormias reparei no aro pálido do teu dedo anelar, era a primeira vez que íamos à tua casa e que ficávamos juntos mais que umas horas. Passados alguns minutos da minha aparente descoberta eu saia da tua casa deixando o seguinte bilhete sobre a almofada emprestada sobre o tapete em frente à lareira, que alimentei de madeira:

Não gostaria que a tua esposa aparecesse e encontrasse coberta e aquecida pelo deu mais que tudo alguém que não ela. Saí e não deixei nenhum vestígio meu à excepção do bilhete, que agradecia que queimasses! As maiores felicidades e da próxima vez não tragas à casa da tua esposa outra mulher, existem hotéis!

 

- Sim dormi pouco mas o Bradbury não tem nada com isso! Estava a pensar na ironia que se mantém: Montag é um bombeiro que queima, por ordem do governo, livros! Odeia-os! Esta dicotomia só por si é notória, um bombeiro que ateia fogos! Vive numa sociedade fútil que vive para a televisão, não lê porque é proibido e não conversa sobre sentimentos…quando querem denunciar um leitor colocam o seu nome na caixa do quartel de bombeiros e assim destroem uma vida! Tudo isto… é irónico… cobarde e pérfido!

- Ahhhhhhhh…o livro é sobre isso? Pensava que ele se apaixonava pela miúda do lado e deixava a mulher que tinha aqueles ecrãs todos de televisão! – dizia a Rita.- Ana, vou começar a ler os livros inteiros! Contem-me lá o resto!

O Tomé ria-se e lá lhe contou. A Teresa continuava a bater na mesma tecla: malvado Bradbury! Ímpio!

O Pedro, o Tiago e o Daniel mantinham com ela uma conversa paralela e o Paulo insistia com ela que estávamos a discutir o Fahrenheit 451 e não outros livros ou contos. Eu ria interiormente pois parecíamos um bando de tolos que não sabiam o que diziam: funcionávamos no caos. A mim o que me incomodava era o facto de ter feito parte de uma ironia da vida e não me sentir triste, frustrada. Só estava zangada por não ter podido decidir com conhecimento… ter sido enganada!

A Rita suspirou finalmente quando lhe contaram o fim do livro!

-Poético! Justiça poética… ainda bem que ele sobrevive… coitado!

- Se pensarem bem… não estamos muito longe deste mundo ficcionado!

Eles olharam-me como se a noite em claro me tivesse adormecido os neurónios.

- Reflictam comigo: Actualmente quantas pessoas conhecem que escrevam, telefonem a dizer que têm saudades? Quantos dizem o que pensam ou conversam só porque lhes apetece? E ler? Bem, poucos lêem! Somos culpabilizados pelo tempo que passamos a ler e não num ginásio, num solário…

 

O Tiago completou:

- … Realmente corremos o risco de numa década próxima alguém escrever uma crónica com um teor idêntico… com graus Fahrenheit para os inglese e americanos e Celsius para os europeus e restantes. Seremos as gerações pós Bradbury que queimaram sem fogo o pensamento…e tudo o resto…

 

Parámos para pensar… e ficamos em silêncio…

 

Enquanto dormias… eu estava entre amigos… a queimar não os sentimentos mas a culpa por algo de que não sabia…Os meus pensamentos formaram-se sozinhos e descobri em poucos minutos aquilo que a minha mente já sabia fragmentariamente: o aro pálido no teu dedo anelar esquerdo tinha um significado!

“You

publicado por crowe às 23:29
tags:

19
Dez 05

Pés no chão…Olhar na massa difusa de corpos perdidos no escuro… nublados pelo fumo de bocas alheias!

O cabelo roça-me as costas nuas que a camisola teima em não cobrir! E … descobri porque usam as mulheres o cabelo longo: nenhuma mão pode acariciar-nos com tamanha suavidade. Não, não usamos o cabelo longo por causa dos homens, usamo-lo assim porque ele nos mima sem querermos.

Danço ao ritmo que sinto, o meu!, não o da música.

Com a língua sinto ainda o teu gosto nos meus lábios e sorrio. Abandono a pista e deito-me no sofá com a cabeça no colo do único homem que conheço a quem posso contar a minha recente descoberta sobre o cabelo: o David! Naquela madrugada como em tantas outras saímos para a noite em busca do anonimato e do abandono do telefone! Conto-lhe e ele ri-se (como quando come chocolate)… quem nos vir imagina-nos amantes, namorados … Doidos … destrambelhados … embriagados... sei lá! Mas nunca imaginarão que somos só amigos! Impossível sermos algo que não e, somente, amigos!

Cada um com a sua paixão quase impossível, cada um apaixonado por um homem quase inatingível! Com a conversa, os risos, e o cabelo a acariciar-me as costas, sinto novamente o gosto salgado da tua boca na minha…apetecia-me beijar-te! Um beijo sério, sentido, apaixonado… sem rótulo possível! Quando o fumo desapareceu e com ele as bocas que o expeliam, desligaram a máquina que ajudava a produzi-lo e os empregados começaram a varrer a pista… saímos para um pequeno-almoço matutino… E num daqueles bares de praia, embrulhados nos casacos um do outro, bebericamos chocolate quente (o meu sabia a ti!)… e rimos das ideias tipo “algodão doce” que nos povoaram a mente toda a noite, das  tipo “malagueta” e das tipo tempestuosas… Poderíamos fazer um filme…

Pareceu-me ver o cão do Rui a correr na areia da praia(suave como marshmallows) e quando os olhos do David se iluminaram… percebi logo que ia ficar sozinha ali o resto da manhã!

Fiquei sozinha mas feliz pelo companheiro de fantasias, aquele que me afastou do telefone… mas me deixou falar de ti toda a noite!

Com o teu gosto na boca, o teu cheiro em mim, o cabelo a acariciar-me as costas e um sorriso maroto nos lábios subi as escadas para em casa encontrar um atendedor de chamadas repleto da tua voz!

Ri enquanto te ligava… Senti um gosto amargo na boca (como se acabasse de mastigar uma goma ácida) enquanto falava com a mulher que me atendia o telefone. Fingi uma urgência (tipo bolo a queimar)! Quando te acordou e te passou o telefone o gosto a ti era cada vez menos doce, nem a tua voz rouca a adocicou!

Dei-te os bons dias e esperei… No teu silêncio suspirei e desliguei!

Ainda relembro o teu sabor cada vez que sinto o cabelo a roçar-me as costas nuas!

A única coisa que consigo pensar é que a loja de doces fechou! Nunca ninguém tocará ninguém como o cabelo nos roça as costas mas também ninguém saberá aos sabores doces como tu!

publicado por crowe às 18:49
tags:

09
Out 05

O céu estava cinzento!

As nuvens carregadas!

Ao longe trovoada quebrava o silêncio mudo da casa!

Quantas vezes tinha prometido que nunca mais iria chorar mais do que uma simples lágrima?! Já nem eu própria acreditava nas minhas promessas a mim mesma!

A casa estava vazia e apesar de abertas as janelas nada entrava!

A luz baixa, os sons do mar, os gritos das gaivotas… nada!

Fechei as janelas zangada… podia começar a chover de repente e assim podia entrar a chuva e eu teria uma casa cheia de …água… que não viesse dos meus olhos!

Olhei para a cama, muito bem arrumada e num acesso de raiva desfi-la! Amarrotei os lençóis, espanquei as almofadas, atirei o edredão para o chão… nada me sossegava! Atirei-me para cima da cama desfeita, dos lençóis amarrotados… e prendendo o choro adormeci…acordei com o som da chuva a bater violentamente na vidraça das janelas e com o som do telefone!

A Joana… vinha a caminho com o Pedro! M***da! Não queria ver o Pedro!

Disfarcei os olhos inchados e vermelhos o melhor que pude e acendi a lareira. Ouvi o carro chegar enquanto refazia a trança… Não queria ver o Pedro!

A Joana entrou tagarela e feliz como sempre e o Pedro olhou para mim, o olhar estava vazio como a minha casa até a chuva ter chegado.

Não conseguia olhar para ele… não que sentisse raiva!... Sentia fúria e culpa! Mas esses sentimentos eram meus, não dele, não nossos… meus!

Entre chás e scones… lá para o fim da noite lá percebi pelo olhar dele porque tinha vindo com a Joana! E aí sim, tive realmente vontade de chorar… mas lágrimas gordas, nada de fiozinhos de água… Lágrimas com conteúdo… Ele tinha aparecido para fazermos as pazes… depois de dias…

Depois de horas entre trocas de olhares…fizemos as pazes sem palavras…!

Chiça às vezes abomino mesmo ser mulher! A facilidade com que choramos e nos sensibilizamos… raios partam as hormonas! Mas às vezes, odeio os homens e a sua facilidade em racionalizar tudo e, aí, adoro ser mulher!

Mas… adoro, especialmente: o cheirinho a canela que vem da cozinha pela manhã quando ele está, a facilidade com que fazemos as pazes, a forma como comunicamos com o olhar e o modo como a minha temperatura se adequa à dele só por estarmos perto… Odeio sentir-me magoada com coisas tão pequenas como palavras ou a falta delas… não conseguir deixar de me sentir vulnerável… tão vazia e tão preenchida ao mesmo tempo por me sentir como sinto: enamorada!

Chorar como uma tonta, ralhar-me a mim própria para momentos depois sorrir como uma tonta muito tonta com os olhos brilhantes … A minha amiga Joana chamar-lhe-ia “relação entre homem e mulher: insondável, indissociável ” e eu questiono-me: Relação ou ralação?!

Não sei! O que sei é que quando as "janelas" estão realmente abertas entra sempre algo... mesmo que um simples som... Quando as fechamos... ficamos vazios! Não choramos mas também não rimos!

publicado por crowe às 19:30
tags:

16
Set 05

quadro_mae_e_filho5.jpg

-Mãe, conta-me uma história dos outros tempos!

Ela sentou-se na cadeira de baloiço ao lado da cama da sua menina, pegou-lhe ao colo e embrulhando-a com todo o cuidado numa manta começou.

- Era uma vez no tempo em que as andorinhas voltavam na Primavera e faziam um ninho, ali – e apontou para o beiral – e acordavam toda a casa pela manhã com o seu cantarolar.

-Mãe, conta-me outra vez como eram as andorinhas!

- As andorinhas eram aves negras…

- Mas não eram a mesma coisa que corvos disse ela a sorrir esticando o seu dedinho, tocando num ecrã. Apareceu um corvo.

A mãe sorriu, com aquele sorriso que só as mães têm. Tocou no ecrã e mostrou-lhe uma andorinha.

-Não, não eram como os corvos. Eram diferentes!

- Mãe, conta-me como eram os ninhos daqueles tempos. - E enroscou-se no colo da mãe.

A mãe, como todas as mães, com toda a paciência e o melhor que conseguia explicou-lhe como as andorinhas faziam os ninhos. Os olhos da menina, nublados pelo sono, piscavam e os seus lábios sorriam. A mãe embalava-a com doçura e maravilhava-se com a curiosidade do seu pequeno ser, resultado de amor.

- Oh mãe, se eu adormecer no teu colinho hoje amanhã as andorinhas voltam para o nosso beiral e fazem lá um ninho?

Como explicar à menina que já não havia andorinhas? Que não existiam muitos animais e que os que existiam estavam quase extintos? Como explicar-lhe que a culpa era somente humana e nada alteraria o passado?

- Vamos combinar o seguinte: tu adormeces no colinho da mãe e sonhas com as tuas andorinhas e pode ser que um dia elas voltem e façam ninhos debaixo do teu beiral!

A menina sorriu confiante. Adormeceu a pedir que a mãe lhe falasse mais das andorinhas e a mãe adormeceu-a esperando que um dia a sua menina visse andorinhas.

publicado por crowe às 16:10
tags:

07
Jun 05
Dei uma baforada no cigarro e senti um pigarrear atrás de mim! Olhei de soslaio e vi uma loira que me olhava de forma pouco amistosa! Dei uma baforada sôfrega em resposta e expirei o fumo languidamente! Ri interiormente, se ela imaginasse o mau feitio com que estava…fugia de certo! O café chegou e eu olhava para o bloco em branco à minha frente! Há dias que não conseguia juntar duas palavras com sentido! Nada que pudesse formar uma frase com sentido. O prazo estava a acabar e eu só me lembrava que tinha atirado o telemóvel ao mar há 3 noites atrás! Estúpida… tinha-me livrado do número dele e de todos os outros… até o do meu editor! Anotei no papel, enquanto agradecia ao empregado, sem levantar a cabeça: nunca atirar o telemóvel ao mar! Atirar-me a mim nunca ao telemóvel, portátil ou pda. A loira tocou-me no ombro! Olhei para cima: - Sim?! - Olhei-a com a cara do meu mau – humor. Ela encolheu-se e compôs o decote. Imitei-a (Também tinha com que encher o decote, ora essa). Ela pareceu ficar furiosa e lembrei-me de onde a conhecia. -O fumo do seu tabaco está a incomodar – me! - E pôs a mão na anca, sorrindo. Apontei-lhe o símbolo que indicava local de fumadores: - Pode dirigir-se para a zona de não – fumadores. - E sorri acendendo outro cigarro. Ela foi sentar-se. Começando a papaguear ao telemóvel, fazendo queixinhas de mim a alguém. -Another one bites the dust! – Digo entredentes. Eu cá acho que é um comentário idiota para se fazer numa situação destas enquanto se espera que o café adquira uma temperatura aceitável. Também acho estranho que alguém se acaricie sentada numa cadeira enquanto beberica um chá num café lotado e se queixa do fumo dos cigarros dos outros e papagueia ao telefone! Devia ficar contente com o nosso fumo, assim ficava na neblina e podia acariciar-se mais a vontade! Mas que ideia a minha ter ideias quando a minha inspiração está tal como o meu bloco: em branco! Depois de terminar o café lá me fui embora, decidida a tentar escrever qualquer coisa nem que fosse uma tese de batata frita! Ideias em dias de calor?! Ai que difícil tê-las e impossível transcrevê-las!
publicado por crowe às 20:44
tags:

Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Porque sim!

links
as minhas fotos
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO