There is always more then meets the eye!

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Jul 04

Betão armado. Cinzento, tudo cinzento. É a totalidade que consegues ver através de um par de janelas com vidros empoeirados, enquanto a pessoa sentada a teu lado teu lado te olha com cara de poucos amigos e o cheiro a suor te invade as narinas e te chega aos pulmões, aproveitando entretanto para fazer uma pequena paragem no estômago dando-te violentas ânsias de oferecer a todos os presentes o teu almoço, aquele que comeste às pressas e que quase não mastigaste (tal a pressa), regurgitado e com o característico cheiro a “chega-te para lá que hoje só me apetece comer iscas”. Começas então a lembrar-te de rostos desconhecidos que já te passaram pela vida sem saberes o que havia por detrás deles. E relembras aquele desconhecido que te sorriu no Metro e aquela simpática criança que contigo brincava às escondidas por entre os cabelos da sua mãe. Há também aquele cego que vês sempre no mesmo sítio que displicentemente está sentado ao abrigo da chuva e à mercê do frio, do calor tórrido do Verão, impossibilitado de ver mas com uma capacidade auditiva a 101% e que vai ouvindo, lá do seu cantinho, as conversas dos transeuntes. São pedaços de conversas que partilha em silêncio, gargalhadas que ri sem emitir som e lágrimas que chora sem que uma lágrima escorra naquele rosto marcado pela vida e vincado do tempo. Mais à frente lembras-te de ter visto um velho, um velho muito velho, ainda mais necessitado que vai pedindo a quem passa “auxiliem-me por favor!”. Um pedido sem forças como se se tratasse do murmúrio de um qualquer moribundo. Baixo, sussurrando sem forças e com muita, muita dor e ainda mais pena por uma vida que se foi, que se vai, que irá. Uma mão que se estende, que implora piedade e que nada recebe. E assim vais pondo em ordem todas as coisas marcantes que te passam pela cabeça enquanto esperas que a fila de transito ande e que depressa chegues à paragem de autocarro que fica junto à escola, para que a alegria entre e permaneça naquele sinistro transporte público onde todos, desde o motorista até ao pequeno passageiro, estão de mau-humor. Arranca. Para. Arranca e para de novo. E assim se vão passando umas horas, uns minutos, uns segundos sempre à espera que algo vos venha acordar da letargia em que se encontram. Tu e os outros. Uma galinha! Vês de repente, e ao longe, uma galinha que ao correr parece imitar uma avestruz. É um pedacinho branco, vivo e estúpido na imensidão cinzenta e morta. É aquela esperança vã e fugidia que todos temos. Branca, viva e estúpida mas sempre aquela esperança. Viva, Branca, fugidia mas jamais estúpida.

publicado por crowe às 11:16
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Exposição nua e crua, de um, de muitos dias numa cidade ... La Luna
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Anónimo a 27 de Julho de 2004 às 13:53

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