There is always more then meets the eye!

30
Dez 08



“You got what you need”... levantei-me de um salto quando o rádio iniciou o despertador. Ainda era noite cerrada, raios era sábado... tinha-se esquecido de o desligar?!  Oh destino estranho! Com tanta música para a acordar a meio da madrugada tinha que ser aquela! Claro que sim, com o seu estranho fado só podia mesmo. Colocou-a mais baixo e aninhou-se no edredão ouvindo a chuva que caia de mansinho! Tinha ido levar a Sara, a prima dele, ao aeroporto naquela noite. Continuavam a trabalhar juntas mas em escritórios diferentes. Mas sempre tinha dito que queria ir morar uma temporada a Londres, não podia queixar-se certo? Estava a concretizar velhos sonhos, a atingir os seus objectivos. Lamentava o momento em que os poderes do universo ou que raios eram se tinham unido para me fazer feliz profissionalmente. O telefone tocou. A Sara já tinha chegado a Lisboa, ia já a caminho de casa. Ouvi a musica que tocava no auto-rádio: Morcheeba. Ia no carro do primo de certeza. Não fiz comentários, desejei-lhe uma boa noite e combinei falar com ela na segunda-feira quando voltasse ao escritório. Senti uma picada de remorso. Podia ter ficado em Lisboa com ele. Nada me obrigava a ter ido aquele ano para o escritório de Londres mas não podia desperdiçar a oportunidade para tentar um namoro com um homem seis anos mais novo. Poderíamos ter mantido a relação que tínhamos mas ele tinha ficado profundamente magoado comigo. Era tudo ou nada. Lógico que não esperava que ele ficasse um ano a minha espera ou tivesse comigo um relacionamento a distância mas continuava apaixonada por ele e senti saudades de tudo, especialmente de o ver acordar estremunhado com o seu relógio Diesel de ponteiros florescentes.
Estava a adormecer quando o telemovel tocou. Numero privado, o coração deu uns pulinhos e pensou que talvez ... atendi sem fôlego. Era a Sónia, estava em casa da Sara. Estavam a ver as fotos da viagem. Como estavam as duas a falar ao mesmo tempo disse-lhe que pusesse em voz- alta. Assim falaríamos todas. Sorri e pensei no quanto tonta tinha sido. Depois de quase quatro meses ele não ia ligar-me so porque me tinha visto de passagem uma ou outra vez quando estava em vídeo- conferencia com a Sara. Ninguém tinha tido conhecimento do nosso relacionamento e aparentemente este continuava no segredo dos deuses.  A Sónia mencionava a minha falta de fôlego ao atender o telefone e insinuava que de certo eu teria companhia. Ri-me.
-    Sónia, juro que tenho sido mais casta estes últimos meses que uma virgem. Tenho sido tão bem comportada que qualquer dia ou entro em combustão espontânea ou tenho o meu hímen de volta.- e rimos todas.- Mas que fazes tu ai, foste buscar a Sara?
-    Não, o primo foi busca-lá! Mas agora conta lá a história desses desamores. A Sara disse que tens uns amigos muito interessantes. Aliás estão aqui nas fotos com vários. Conta lá tudo desembucha anda.
-    Que queres que te diga? São bonitos e interessantes. Uns são colegas de trabalho outros amigos dos copos. Saímos e divertimo-nos. Não tenho interesse em nenhum dessa forma nem vice versa. Agora quero saber quando cá vens!
-    Hum pois... Até parece que o Connor não te manda flores todos os dias. Quando lhe falei em tulipas nunca mais te mandou mais nada durante a semana. Há tulipas em todo o lado lá no escritório as secretarias adoram-na de tanta flor que recebe. Ela nem lhe liga Sónia dá pena. Que desperdício de homem bonito.
-    Aiiiiiiiiiii, deixa lá de me arranjar namorado. Não tenho e não quero.- Exasperei. Não me apetecia aquela conversa depois da musica que me acordou aos berros. – Estou cheia de sono e tenho planos para o pequeno-almoço. Falamos amanhã?
-    Está bem, afinal são 3 da amanhã!
-    Cá são 4 meninas. Deixem-me dormir. Beijos imensos adoro-vos!
-    Beijinhos nossos. E... ah... o meu primo manda-te um beijo!- acho que o meu cérebro emudeceu de espanto e a minha boca não se mexia. Ouvia-a falar com o primo mas nem descortinava nada.
-    Hum... para ele também!
-    Ah não me pediste nada disso. Não vais nada pedir-lhe...- falava com ele não comigo.- Olha vou passar-lhe o telemóvel.
-    Ana! Olá!- era mesmo, mesmo, mesmo ele.- Como estás?- percebi que tirou o telefone de alta voz.
-    Bem obrigada e tu?- percebi que elas riam e conversavam, mas, as vozes estavam a distanciar-se e pareceu-me ouvir uma porta fechar.
-    Contente por te ouvir.- a voz dele era terna.
-    Ah sim?! Se te apeteceu conversar porque não ligaste antes?
-    Sabes bem porquê!- pausou.- A Sara diz que te estás a dar bem ai... pareces ter vivido ai toda a tua vida. Parece que tomaste a decisão acertada então.
-    Sabes uma coisa? São 4 da manhã e tive uma semana dificil, não me apetece falar por charadas. O que queres saber exactamente?
-    Vou para Nova York amanhã e daqui a uma semana estarei em Londres... na sexta-feira à noite. Podemos ver-nos?- fiquei muda de espanto e contente. Tinha mesmo saudades de o ver. Perante o meu silêncio:- Sinto mesmo a tua falta. Queria só estar contigo.
-    Liga-me. Tenho sempre um carro à disposição aqui, posso ir buscar-te ao aeroporto se quiseres. Precisas de alguma coisa... mais?
-    Oh não estás a pedi-lhe que compre coisas pois não? Trouxe já imensa coisa para aquela tua namorada chata. – Ouvi a prima dizer-lhe. Senti ciúmes e fiquei furiosa. Passámos horas infindáveis no Harrod’s e em todas as lojas de Sloane Street. 
Well done me.
Mas de que iria eu queixar-me? Eu tinha sempre recusado uma relação com ele, tinha-me vindo embora mesmo depois daquele gesto incrivelmente romântico. Ia queixar-me por ele seguir o meu conselho e ter deixado que a vida continuasse? Por ele ter sido humano? Sabia que não devia queixar-me mas senti ciúmes e dor... uma dor estranha... mas disfarcei e aparentemente muito bem.
-    Va lá Sara! Há algumas lojas que ainda devem ter algumas coisinhas por vender. Além disso não custa nada dar um pulinho com ele ao Harvey Nichols! Farei dele o namorado ideal...
-    Hã?
-    No que diz respeito a prendas caras claro!- rompi numa gargalhada e tive vontade de contra-atacar com o Sean mas... afinal tinha 31 anos bolas.- Vem em paz meu caro e traz a lista, eu levo-te a umas lojinhas e depois... bem, meninas e menino... vou dormir um bocadinho... tenho um dia cheio amanhã.
...
A semana passou a correr comigo a pensar que raios ia fazer com ele em Londres. Mandou-me uma mensagem na sexta-feira a meio da tarde dizendo o numero do vôo e o horário. Fui o mais cedo que pôde para o aeroporto não fosse o trânsito pregar-nos uma partida, estava nervosa como se fosse uma debutante. Estava com o meu habitual termo de café na mão quando o vi. Seria possível que estivesse ainda mais bonito? Trazia um dos seus jeans desbotados e uma das camisas que lhe tinha oferecido... “O Diabo vestia Prada”. Sorriu-me, se já me parecia que o coração ia saltar pelo decote com aquele sorriso tive certeza de sairia disparado. Abraçamo-nos e com os cumprimentos ditados pela boa educação. Eu franzi o sobrolho. Caminhamos para o carro falando da sua viagem e de Nova York.
Cáca de conversa! Quando entramos no carro do sempre bem humorado Roy disparei:
-    Acabando com a conversa de chacha... Vais dizer-me então onde ficas hospedado? E porquê tanta questão em estarmos juntos? Quererás uma cartinha de referencia para a namorada?
-    Ex-namorada!- riu-se despenteando o cabelo já de si desgrenhado.- Só cá fico esta noite. Tenho um vôo às 8 da manhã.Não era o acertado. Podes deixar-me num hotel que conheças? Tinha pensado no Ritz... se tiveres disponibilidade poderíamos jantar.
Assenti, iríamos jantar, com aquela corrente electrica entre nós iluminaríamos a sala de qualquer lugar. Levei-o ao hotel e marquei mesa num dos meus restaurantes favoritos: O Maze, enquanto esperava por ele. Voltamos ao carro e o espaço parecia-me cada vez mais apertado, tinha calor...
Jantamos e conversamos como velhos amigos mas, na minha cabeça o filme era outro e só uma bolinha vermelha não chegava. Pediu-me que o deixasse no hotel. Assim o fiz completamente contrariada. Aparentemente aquele encontro servia para uma coisa: ele mostrar-me o que tinha perdido. Raios, voltei atrás! Quando ele abriu a porta entrei sem dizer nada. Beijei-o e entrei literalmente em combustão espontânea. Raios de miúdo que me deixava fora de mim e não me saia da cabeça. Quando acordei ele já se tinha levantado e estava a preparar-se para sair. Os papeis invertiam-se. Beijou-me muitas vezes em despedida mas nenhum dos dois disse nada.
Passei o fim-de-semana melancólica e durante a madrugada levantei-me várias vezes para ligar-lhe mas não o fiz. No Domingo à noite quando chegava de um passeio percebi que alguém se mudava finalmente para o apartamento do lado.  Todas as tardes quando chegava começava a musica. Parecia uma serenata para mim, era uma idiotice eu sabia mas se ouvia uma musica no dia seguinte ela tocava ou tocavam musicas de que eu gostava. Não que os novos inquilinos pudessem saber dos meus gostos musicais mas a realidade é que parecia. Nesses momentos sentia ainda mais saudades dele, do Duarte, e várias vezes pensei em ligar-lhe. Estava  a ficar louca!
O seu carro estava a dois lugares da minha mota. Era um audi descapotável igualzinho ao que ele tinha. Fazia um som de gato a ronronar quando começava a trabalhar.
Aquelas serenatas continuaram na semana que se seguiu e tive mesmo que lhe ligar quando tocou rolling stones, o que toda a semana parecia um mote. A realidade é que até me parecia sentir o cheiro dele no hall. Louca, mas mesmo louca! Porque me tinha ido eu meter na cama dele outra vez?! Não me saiam as imagens da cabeça e as sensações do corpo.
Ele atendeu  e eu sem conseguir controlar a língua pedi-lhe que fosse meu namorado.
-    Namorado? Hum, mas que mudança...
-    Não sei como resolver isto ainda me faltam uns meses aqui mas nem que passe os fins-de-semana em viagens de um lado para o outro... acho... sei... que preciso mesmo de ti! (tinha custado muito a dizer) Raios sinto o teu cheiro em todo o lado no meu prédio e nunca estiveste aqui.
-    E da musica, gostas da musica?- A campainha tocou.
Não podia ser ele... corri para a porta. Ele estava lá de iphone na mão. Atirei o meu para o chão e saltei para o colo dele. Entramos aos beijos e quando me pousou no sofá agradeci pela primeira vez a sua dimensão. O vestido subiu e as cuequinhas desapareceram em segundos. Parei-o.
O Olhar dele estava confuso e toldado.
- Vamos para tua casa!- e comecei a levantar-me. Andando para a porta.
- Mas, porquê?- mexia no cabelo desgrenhado e compunha as calças.
- Porque quero acordar contigo. A partir de agora passamos mesmo as noites juntos. Queres dormir comigo?
Enquanto saíamos de um apartamento e entravamos noutro o Jagger cantava:

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You get what you need

You get what you need--yeah, oh baby
 

publicado por crowe às 22:28
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18
Dez 08

Entrei em casa a pingar. Ping, ping, ping longos e pesados pela escada acima.
Ouvi a porta abrir r fechar e uma orquestra sinfônica de pings, pings, pings apressados atrás de mim. Entrei na casa de banho e abri o chuveiro.
Ele entrou batendo a porta e os pings pararam. Nem me dignei a olha-lo de tão furiosa que estava.
-    Não dizes nada?
-    Vou começar a despir-me!- Olhei-o em desafio e comecei a desapertar o soutien.- Ups, caiu!- coloquei uma mão à frente dos lábios e fiz a cara mais inocente e irônica que sabia.
Ele veio em minha direcção primeiro como uma flecha e depois hesitante. Não sabia o que esperar. Coloquei as mãos nas cuecas e olhei-o.
-    Continuo ou sais?
-    Eu, Sofia... eu...- de um só gesto soltei os laços e as cuecas caíram.- Então António gostas da minha tatuagem nova? Queres ver esta de perto também?
Estava a ser propositadamente provocadora e masoquista. Sabia que teria remorsos e me arrependeria mais tarde daqueles gesto e atitudes impensadas. Mas estava fula com ele e as suas aparições na neblina. Malditas conversas sérias a dele. Seria mais fácil lidar com esta situação se um de nós fosse o vilão. Ele olhou-me e abraçou-se notoriamente perturbado. Falou junto à curva do meu pescoço.
-    Não podias fazer isto. Não vou conseguir não pensar em ti e já é difícil.
-    Era menos doloroso se reagisses com desejo ou desprezo. Abraçarmo-nos foi um erro dos grandes.- Não era pelos corpos nus que já tão bem se conheciam. Era a sensação de posse, de pertença que ficava em nosso redor. Não querer sair dali mesmo que o mundo acabasse.- António, vais ter de me largar! De me deixar ir tal como tenho feito contigo.
Senti o meu ombro molhado. Ele soluçava e o amor e a ternura assaltaram-me. O meu coração ficou pequeno e todo o meu corpo gritava não o deixes, não o largues é teu!
-    António, por favor, peço desculpa pela cena de nudez. Não pudemos continuar assim. Não posso ir-me embora nem mandar-te embora... são últimos momentos da Teresa.
Ele levantou a cabeça e procurou os meus lábios. Entre a neblina que já invadia a casa de banho e os nossos corpos nus deixou de existir norte. Sentia urgência dele, colei-me mais a ele e trouxe-o comigo para debaixo do chuveiro.
Uma batida na porta fez-nos parar.
-    Sofia, António!- Disse a voz do Tiago a sussurrar.- Trouxe a vossa roupa e vou esconder-me no teu quarto. Já deram pela vossa falta.
-    Merda, a Cátia!- Foi como se a água tivesse gelado.
-    Sai daqui António e não digas uma palavra.
Ele conhecia-me bem e fez o que lhe pedi. Se fosse mais frágil tinha chorado de vergonha, de frustração, de fúria.
Peguei na minha roupa e enrolada num lençol de banho lilás sai da casa de banho passando por eles, até o António(que se vestia e despia a velocidade do super-homem), ainda molhada e descalça. Ouvi os comentários da praxe. Tornavamo-nos adolescentes imberbes durante aqueles dias. Não consegui deixar de rir perante os piropos desajeitados e já fora de moda que usavam.
-    Ah, esse roupão de banho é meu!
Come on make my day!(céus parecia que aquela anormal tinha adivinhado o que me faltava para coroar aquele dia longo).Para eles era lógico pela expressão do meu olhar que alguém estava verdadeiramente F-o-...dido!
-    A sério? E Quere-lo muito certo?- todos perceberam que não me referia aquela porcaria com cheiro a lavanda.
-    Sim, é meu! Mas posso emprestar-to.
Olhei pedindo desculpa com o olhar à Teresa e de um puxão tirei o toalhão  ficando ele suspenso por um dedo deixei-o cair.
-    Obrigada mas sempre preferi secar ao ar. Não quero o que não me pertence e não gosto de empréstimos.
O António percebeu e corou e sei que teve vontade de me agarrar e sair dali comigo. O marido da Teresa riu-se à gargalhada:
- Olha, ela tem uma tatuagem nova!
Foi o riso geral. Até me esqueci que estava nua. O Tiago veio em meu auxílio.
Depois de vestida passamos o restante serão a rir, a beber, a conversar a e trocar idéias para filmes que começávamos a ver e não terminávamos.
Todos sabiam que se passava algo de estranho entre mim e o António. Ninguém sabia o porquê de ele ter saído de casa. Sinceramente, nem eu sabia bem porquê... um dia tinha acontecido.
Ao meio-dia, a cair de sono fui encostar-me na cama. Senti uma presença na cama comigo e reconheci o cheiro dele.
- Quero voltar para casa. Quero voltar para nós!
 

publicado por crowe às 21:21

16
Dez 08

A imensa neblina percorria a avenida como um dragão de fumo, serpenteando, envolvendo e engolindo tudo em seu redor.
Ficava lindo assim, perdido em plena avenida; deserta de gente, repleta de vapor de água.
Rodopiava em volta do seu novo amor, aquele, jurava: é para sempre!
Enquanto ele e o seu amor iam desbravando caminho por entre a neblina nós, os restantes elementos do grupo íamos andando encolhidos, ensonados, risonhos, felizes, preocupados até ao destino: a casa da Teresa!
Todos os anos nos juntávamos em casa de alguém e por lá acampávamos dois dias. Assim nos mantínhamos em contacto desde que tinha terminado o liceu. Sempre os mesmos, com uma adição de namorado ou namorada. Era a nossa tradição de final de ano, estarmos juntos antes de o ano acabar.
O Tiago colocou-me o braço na cintura num abraço ternurento e despenteou-me o cabelo. Olhei para ele e sorri-lhe.
-Como reages ao que vês?
- Hum... boa questão sr. Jornalista! Sem reação! Já sabia que ele trazia companhia, ligou-me a semana passada. Foi simpático!
- Mas que atencioso. Soube que se têm encontrado...
- Sim, continuamos a morar na mesma rua. Encontramo-nos no café quase todas as manhãs. Apesar de todo este tempo continua a ser desconfortável, mas a vida não pára só porque  sim...
-  Nesse caso amiga, durante estes dias tomo conta de ti. Quando precisares de umas escapadelas dizes. – piscou-me o olho.
Reconfortava ter amigos, mas ter amigos em comum com um ex que também o havia sido era, no mínimo, difícil.
Aquele seria o último ano em que estaríamos os 8 todos juntos. A Teresa ia para África em definitivo. Era importante estarmos juntos e bem. Coloquei a minha cara de felicidade,tinha ainda muitos dias pela frente. Podia guardar a imagem dele perdido na neblina e apagá-la da foto. Doentio? Talvez mas não se apagam sentimentos nem anos de memórias e vida partilhada. Ia passar, ou desvanecer como todas as coisas até ali. Talvez a neblina se quisesse enroscar nelas e devorá-las. Chegamos a casa da Teresa que já nos esperava irrequieta com o comando da garagem na mão.
-    O nascer do sol foi à 1hora atrás. Estão todos atrasados!
Entre uns risos e umas reclamações lá nos dividimos pelos dois carros, atirando sacos e malas para as bagageiras.
Felizmente fui num carro sem ele e sem a sua ela. Dormi até chegarmos, andava encantada e a devorar as páginas de um livro recomendado por uma amiga e a dormir pouco tal a vontade de o terminar. Vim carregada com ele e as suas continuações porque era certo e sabido que livro que se vendesse bem teria sempre, pelo menos, mais dois em continuação e em caso de adaptação cinematográfica podia chegar aos 7.
Este ano ficaríamos 3 dias na serra para podermos desfrutar melhor. Era difícil voltar a repetir-se  este nosso “ajuntamento”.
Como sempre, uns ficavam a lareira enquanto outros iam fazer as suas actividades radicais. Era sempre assim no primeiro dia.
Fiquei com a casa para mim e aproveitei a calmaria para terminar o meu livro. Entre umas espreitadelas à comida que assava no forno e o pão que acabava de cozer ia lendo deliciada. Eles chegaram esfaimados e sujos e eu tive vontade de ter deixado queimar qualquer coisa no formo a lenha para não conseguir olhar para ele com ela. O riso pós coito que eu tão bem conhecia e aquele olhar. Era muitíssimo karmico se tivessem  uma alergia provocada por umas ervas daninhas venenosas. Mas apostava que não.
Sabia que ele conhecia todos os meus gestos de frustação, os meus tiques e trejeitos. Ia inovar. Enfiei-me na casa-de-banho e só sai de la quando o Tiago ameaçou entrar para tomar banho comigo.
Comemos em imensa confusão e eu abusei do vinho. Ele olhava para mim como se pedisse desculpa com o olhar e dissesse que a vida teria de continuar.
Olhei para o Tiago e ele percebeu.
Vestimos os casacos e enfiei um gorro e as luvas e saímos os dois. Ele ficou a olhar para mim. Sempre tinha sentido ciúmes da minha cumplicidade com o Tiago e dizia-o com o olhar .
Que merda! O nevoeiro devia ter vindo connosco desde Lisboa, no meu caso devia ter vindo junto aos meus olhos cegando-me.
Andamos pelo jardim em silêncio e fomos sentar-nos junto à piscina. A água estava apetecível. Sabia que a Luisa a mantinha sempre a temperaturas tipo caldinho de sopa.
-Vamos?- perguntei ao Tiago.
- Para casa?- parecia confuso. Acenei em direcção à piscina.- A sério? Com este frio?
- Eu vou. Está quente.- e comecei a tirar a roupa.
Cachecóis, luvas, casaco, gorro, botas, meias, calças, camisolas. Mergulhei de cabeça.
Depois do frio quando me despi aquele manto morno e suave parecia uma manta de carícias. O Tiago entrou atrás de mim.
Riamos tontos.
Ficamos a conversar, entre uma brincadeira e outra encostados à margem.
O cabelo dele brilhava com reflexos dourados. Parecia uma halo.
- Ficas com um ar divino com essa luz!
- De santo não tenho nada. E tu também não endemoniada rapariga.
O Tiago, tal como eu, tinha terminado uma relação longa havia alguns meses e tal como eu estava fragilizado. Era um amigo muito querido tal como o surgiu das brumas. Maldito António, surgiu na beira da piscina por entre a neblina que o calor da água a evaporar provocava em contacto com o ar frio da serra. Trazia cara de conversa séria a questão era com quem a teria ou se já a tinha tido.
Despiu-se e entrou na água. Com um olhar o Tiago riu-se e foi embora a pingar. Ok a conversa seria comigo.


 

publicado por crowe às 22:54
sinto-me:

15
Dez 08


Dreamed I was missing
You were so scared
But no one would listen
Cause no one else cared

After my dreaming
I woke with this fear
What am I leaving
When I'm done here

So if you're asking me
I want you to know

When my time comes
Forget the wrong that I've done
Help me leave behind some
Reasons to be missed

And don't resent me
And when you're feeling empty
Keep me in your memory

Leave out all the rest
Leave out all the rest

Don't be afraid
I've taking my beating
I've shared what I've been

I'm strong on the surface
Not all the way through
I've never been perfect
But neither have you

So if you're asking me
I want you to know

When my time comes

Forget the wrong that ive done
Help me leave behind some
Reasons to be missed

Don't resent me
And when you're feeling empty
Keep me in your memory

Leave out all the rest
Leave out all the rest

Forgetting
All the hurt inside
You've learned to hide so well

Pretending
Someone else can come and save me from myself
I can't be who you are

When my time comes
Forget the wrong that ive done
Help me leave behind some
Reasons to be missed

Don't resent me
And when you're feeling empty
Keep me in your memory

Leave out all the rest
Leave out all the rest

Forgetting
All the hurt inside
You've learned to hide so well

Pretending
Someone else can come and save me from myself
I can't be who you are
I can't be who you are

 

@Depois digam-me que esta letra não é magnífica

publicado por crowe às 18:43
sinto-me:
música: esta ta claro
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14
Dez 08

Hoje iria depressa para casa, tinha um encontro marcado com uma enorme caneca de chocolate quente e com Edward.

Adeus Mr. Darcy!

Olá Edward!(disse com um enorme sorriso nos lábios).

Estacionei no 1º lugar que me apareceu na rua. Cumprimentei uma vizinha às pressas dizendo que tinha pressa ...

-Então vai ter alguma reunião?

- Não, tenho um compromisso!- disse muito depressa.

-Ah um encontro!

Corei, podia-se dizer que sim... que era um encontro com uma personagem fictícia. A personagem vampira, impressa em 4 livros e profundamente apaixonada por uma humana.

Suspirei a pensar no meu livro de oitocentas e muitas páginas prontinho a ser aberto e desfolhado.

Deixei a minha vizinha a maquinar e fui para o elevador carregada de envelopes e pastas.

Cinco minutos depois, elevador cheio, esvazio os pulmões e gasto os últimos sorrisos semi-abertos entre uns boas noites sussurrados.

Nunca percebi como os meus vizinhos sabiam o meu nome e tinham sempre um sorriso aberto em cumprimento à minha presença sendo eu quase anti-social. Com ênfase no quase.

Entrei e fiquei compostinha até ao 2º andar onde saiu a loira do B.

Respirei fundo e atirei tudo para o chão, ainda faltavam 6 até ao oitavo. O elevador soluçou e as portas abriram-se à força de braços.

Ele entrou espalhando a sua fragância quando os seus desordenados cabelos negros dançavam enquanto ele se movimentava. Olhou para a minha expressão tonta e sorriu, com um sorriso enorme e brilhante. Cumprimentou-me educadamente perguntando se queria ajuda com os sacos e pedindo desculpa se me tinha assustado. Os seus olhos verdes brilhavam de divertimento. Senti-me uma miudinha tonta e atrapalhada que vai de totos para o secundário.

-       Agradeço mas não é necessário, saio daqui a pouco. E fui eu que coloquei a tralha no chão. Afinal, ninguém tinha entrado... de forma normal!- Senti imediatamente animosidade em relação aquela voz rouca e com um sotaque melodioso e aquele representante (divino pedaço de mau caminho). Entrar assim devia ser uma maneira de se sentir muito feliz consigo, armado em forte! Sabia que estava a ser uma idiota com esta série de pensamentos mas, só queria chegar a casa e ler sossegada o meu livro de preferência deitadinha na banheira com água a escaldar.

-       Nesse caso...- virou-me as costas. Estava no sétimo andar. Baixei-me para agarrar na tralha. Aquele elevador estava estranho, parecia mais rápido. Ele desvio-se e colocou uma mão na porta de forma a mantê-la aberta enquanto eu saia com toda a minha tralha. Agradeci e passei por ele inspirando aquele perfume. Raios de homem, tinha um encontro marcado com o Edward e uma banheira cheia de jactos de água e sais perfumados e uma caneca cheia de chocolate.

Entrei em casa, sem olhar para trás e atirei tudo para um canto, enchi a banheira e decidi-me por um copo de vinho aquecido com canela. Alcoólica pensei para mim rindo-me. Se a Susana estivesse em casa tinha-o dito, para nos rirmos com a parvoíce enquanto me ajudava a preparar. Agarrei no meu livro, no meu copo e deslizei o meu corpo nu para aquela maravilhosa cama de água. Comecei a ler. Tocou a campainha. A chapinhar e enrolada numa toalha fui à porta. A toalha era de um bom tamanho o pior era o cabelo que estava solto e a pingar-me pelas costas abaixo. Devia ser a vizinha velhota que achava que eu ia a um encontro. Era seu costume vir desejar-me sorte e bebericar um nespresso.

Abri a porta com um sorriso estampado. Achava graça a velhota.

-Boa noite eu...- O sorriso brotou-lhe dos lábios enquanto olhava a minha figura. Que maravilha! Primeiro tinha parecido uma tonta mal-humorada e descuidado no elevador e agora parecia uma doida molhada que abria a porta semi nua. Enrubesci ate a pontinha dos pés. Felizmente tinha a depilação feita ainda pensei e repreendi-me pelo fútil pensamento.

-Sim?! Enganou-se na porta?

- Hum... bem não! Vim trazer-lhe estes envelopes que deixou caídos no elevador. Já percebi que a altura é inconveniente.- Disse apontando para mim e para o trilho de roupa espalhada até à casa de banho.

Ri-me, mesmo sem achar piada. Outro que achava que eu estava num encontro. Ora podia juntar devassa à lista de coisas que o homem acharia de mim.

-         Bem, isso é subjectivo! Agradeço a sua atenção mas podia ter deixado as cartas na minha caixa.- Ele que me achasse uma devassa, queria lá saber. Queria voltar para a minha banheira e para o meu Edward, afinal estava quase no casamento. Senti uma gota grossa e fria que me escorria pelo pescoço e estremeci de frio. Com uma enorme rapidez e suavidade ele passou-me o dedo pelo pescoço e recolheu-a. Estremeci, ele também. Silêncio incómodo o cérebro vazio.

-         Bem eu vou indo. Desculpe o incómodo!- E saiu com uma incrível rapidez e direção ao elevador que, claro, estava à sua espera. Só comigo mesmo.

Pousei os envelopes e fui para a banheira  assistir ao casamento do Edward com a sua Bella. Não me consegui concentrar o toque e o cheiro daquele estranho não me saia da cabeça.

No dia seguinte, voltei novamente o mais rápido que pude para casa. Ele estava à espera do elevador junto da “minha” velhota. Ela abriu um sorriso que retribui e a ele enviei um esgar.

Ela começou a perguntar-me acerca do meu encontro da noite passada e ele sorria de forma deliberadamente desafiadora e divertida. Quem raios era aquela figurinha com pecado impressa por todo o lado?

-       Então conte lá. Foi um bom encontro?

-      Sim, bastante relaxante e entusiasmante. Como poucos do gênero. pensava na história e nas personagens.

-      A sério?! Que bom. E onde foram? Ele levou-a a um sitio bonito.

Entre dentes ele respondeu: - Ao interior do apartamento.

-       Ah! Já ficaram por casa?! Mas como sabe disso Sean?

-      Fui entregar correspondência. E interrompi um momento molhado. Mas não lhe senti o cheiro nem rasto.- Disse divertido entre dentes.

Ri-me em fúria e sem querer saiu-me um GRRRRR. Bolas tinha que começar a socializar mais com pessoas que não os meus amigos ou colegas de trabalho. O facto de ele não ser nativo aqui do sitio ficou registado e aparentemente era um habitué nas ocasiões do condomínio. Um socializador, branquela, lindo, lindo e com sotaque raios... eles continuaram a conversar até eu sair. As portas fecharam-se atrás de mim e voltaram a abrir-se.

-       Lara, não se esqueça da festa desta noite. Na piscina Interior, traga um presente.- Disse a minha velhota.- E pode trazer companhia se quiser.

Merda! A festa do condomínio. Uma festa de Natal em biquíni. Onde já se viu? Todos os anos a mesma coisa. Às 8horas lá fui eu de fato de banho vestido debaixo do meu vestido preto. Ri-me era sempre a mesma indumentária.

Passei a noite a tentar não estar perto dele, tentando ler o meu livro escondido na enorme mala que tinha trazido comigo. Como sempre não consegui, tinha os vizinhos em pleno espírito natalício a ser simpaticamente comunicativos. Despi o vestido e atirei-me à água. O silêncio enquanto estava submersa era um balsamo reparador. E lá estava ele. Sentado no fundo da piscina a olhar para mim, com o seu corpo perfeitamente esculpido e o seu sorriso magnífico. Não conseguia tirar-lhe os olhos de cima. Estava submersa à demasiado tempo, aparentemente só ele reparou nisso. Veloz abraçou-me pela cintura e fez-me deslizar até à superfície. Entre uma baforada e outra senti os azulejos nas costas.

-       Obrigado?

Ele sorriu novamente, e limpou-me as pálpebras. Raios de homem parecia um anuncio ao colgate, sorriso sempre presente e imaculadamente branco.

-       Hum... pode ser! E como?

Estava confusa. Falta de oxigénio no cérebro? Entreabri os lábios sem saber o que dizer. A resposta veio sem palavras, senti os lábios duros e frios sobre os meus. Um beijo sem pressas ou urgências. Quando me soltou, comecei a deslizar e como se fosse o natural ele puxou-me novamente para cima. Se fosse outra pessoa ou noutra situação eu teria respondido à letra ou até com violência, pensei mais tarde nessa noite.

Os dias foram passando e iamo-nos cruzando nos espaços comuns ao condomínio eu sempre de i-pod nos ouvidos e óculos de sol na cara. Mudei os meus horários mas mesmo assim parecia a presa num estranho jogo de caça. Ele olhava-me como um predador. No inicio de Janeiro retirou-me um phone do ouvido e disse-me:

-Portishead?

Como saberia ele disso se o ipod estava no meu bolso e estava naquele momento pausado. Eu queria ouvir as conversas dele com os vizinhos só não queria falar com ele.

-       A banda sonora ideal para ler um livro de vampiros.- Respondi antes de sair. Que raios de resposta.

A sua rapidez, palidez, fôlego imenso, a beleza incrível e a facilidade com que atraia todos, ate eu própria. Eu o mau gênio em pessoa. A conversa do cheiro e do rasto... céus teria um vampiro no prédio?

Fiquei num frenesim. Decidi Investigar, fui ao apartamento da minha velhota e descobri onde ele morava. Quando apareci parecia estar a minha espera. Entrei tomamos vinho, já num copo e conversamos. A casa era normal, melhor que normal era muito bonita cheia de obras de arte e peças de design. Decidi fazer o teste final e tremia de medo, parti o copo e cortei-me com ele. Ele fez um curativo nada incomodado com o sangue.

Mas que raios de vampiro era aquele?

Entre um gole e outro fiquei a saber que era inglês e tinha sido criado na Irlanda e na Escócia.

O restante podem adivinhar, o desenrolar normal para quem anda aos beijos em piscinas publicas mal se conhece.

Ao fim de uma da muitas noites juntos saiu-me:

-       Não volto a mergulhar em livros de vampiros. Adeus Edward! Olá Mr. Darcy!

 

 

 

 

 

publicado por crowe às 22:52
música: Muse, linking Park, Portishead

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